Meus poetas preferidos: Álvares de Azevedo

Posted: September 2, 2013 in tudo o que eu amo
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Postado em 25 de Janeiro de 2005 no Tudo o que Eu Amo no Multiply. Revisto e ampliado para o WordPress, em 2 de Setembro de 2013.

ÁLVARES DE AZEVEDO

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Filho do Sr. Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Dona Maria Luísa Mota Azevedo, Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, em 12 de setembro de1831, mas passou a infância no Rio de Janeiro. Aos 16 anos, terminou o curso de Bacharel de Ciências e Letras no Colégio Pedro II e seguiu para São Paulo, para matricular-se na Faculdade de Direito.

O jovem Álvares não teve estadia agradável em São Paulo. Reclama disso em cartas que escrevia à mãe, contando seu desinteresse pela cidade, a que chamava cidade dos mortos, tediosa e de gente pouco dado ao convívio social. Essa impressão marcou-o tão forte que se detinha em casa o mais longo tempo possível, entretido em seus estudos e devaneios poéticos.

Não cultivava amizades – pelo menos, não fazia referências à elas nas cartas que escrevia – e nem mesmo amores. Reclamava da ausência na cidade de moças que lhe despertassem algum interesse ou admiração, capazes de arrastá-lo a algum baile ou com a qual pudesse ter um mínimo de dois minutos de entrevista. A vida social ali, para ele, era total perda de tempo. Ia à uma ou outra casa mais por obrigação social e educação do que por gosto. As casas dos amigos da família, Dr. Cláudio, D. Maria do Rodrigo e D. Ana Vicência eram as únicas que frequentava, e mesmo a residência das Gomides jurou não ir mais, escandalizado pelo fato de essas senhoras de reputação duvidosa continuarem a frequentar bailes.

alvares1Moço de família honrada, educado, instruído e afastado das perdições mundanas e dos venenos da mulher pelos carinhos do pai e pelos beijos da mãe e da irmã, não frequentava as tavernas ou os lupanares da época. Mudava frequentemente. Primeiro, morou na Rua da Glória, em frente ao cemitério, uma imagem que certamente o impressionava e que ficou gravada em sua mente e em sua poesia, e depois num quartinho escuro na Rua Boa Vista, onde fica pouco tempo, mudando-se para a Consolação e depois para a Ladeira de São Francisco.

A vida acadêmica também era discreta, e fazia aparições como discursante em ocasiões raríssimas, às vezes na apresentação de algum ensaio ou em orações fúnebres em homenagens aos colegas de curso que iam falecendo. Os colegas de faculdade julgavam-no frio e orgulhoso, mas o jovem tímido e reservado, embriagado de “spleen” e de sonhos, talvez não tenha encontrado na cidade uma jovem por quem seu coração pudesse bater – ou encontrou e foi rejeitado -, e decidisse buscar a amada ideal nos campos da poesia. Mais introspectivo, intenso e febril, o vício da poesia impregnou o espírito de Álvares de tal forma que ele sonhava acordado, imaginando fantasias vertiginosas, o cérebro latejava de tanto pensar em decassílabos ou redondilhas, quartetos, sextilhas ou oitavas, obcecado pela forma e pelo lirismo dos versos que compunha.

Durante o curso de Direito traduziu o quinto ato de Otelo, de Shakespeare; traduziu Parisina, de Lord Byron; fundou a revista da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano (1849); fez parte da Sociedade Epicureia; e iniciou o poema épico O Conde Lopo, do qual só restaram fragmentos. Não concluiu o curso, pois foi acometido de uma tuberculose pulmonar nas férias de 1851-52, a qual foi agravada por um tumor na fossa ilíaca, ocasionado por uma queda de cavalo. A sua obra compreende: Poesias diversas, Poema do Frade, o drama Macário, o romance O Livro de Fra Gondicário, Noite na Taverna, Cartas, vários Ensaios (Literatura e civilização em Portugal, Lucano, George Sand, Jacques Rolla) e Lira dos vinte anos. Suas principais influências são Byron, Goethe, François-René de Chateaubriand, mas principalmente Alfred de Musset.

Uma das figuras principais na antologia do cancioneiro nacional, foi muito lido até as duas primeiras décadas do século XX, com constantes reedições de sua poesia e antologias. Álvares de Azevedo é patrono da cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras.

Álvares cantou a ânsia de amar, como neste poema com dedicatória “À T.”:

Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh’alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tu’alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as virações do paraíso:
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu’alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!

E desabafou diante da impossibilidade de ser feliz diante do Destino inexorável e pela morte:

Pálida sombra dos amores santos,
Passa quando eu morrer no meu jazigo;
Ajoelha-te ao luar e canta um pouco,
E lá na morte eu sonharei contigo!

Oh! ter vinte anos sem gozar de leve
A ventura de uma alma de donzela!
E sem na vida ter sentido nunca
Na suave atração de um róseo corpo
Meus olhos turvos se fechar de gozo!

Nas noites de insônia, a sua única distração para enfrentar a vigília interminável eram seus livros: “Junto do leito meus poetas dormem – o Dante, a Bíblia, Shakespeare, Byron na mesa confundidos.” Ou cantava o amor aos pais, para suportar a distância de casa, nesta passagem emocionante:

Aqui sobre esta mesa junto ao leito
Em caixa negra dois retratos guardo.
Não os profanem indiscretas vistas.
Eu beijo-os cada noite: neste exílio
Venero-os juntos e os prefiro unidos
– Meu pai e minha mãe – se acaso um dia
Na minha solidão me acharem morto,
Não os abra ninguém. Sobre meu peito
Lancem-nos em meu túmulo. Mais doce
Será certo o dormir da noite negra
Tendo no peito essas imagens puras.

Às vezes, deixava-se levar pelos desvarios e ria de escárnio diante da morte, como nesta passagem:

Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada…
Que noiva! E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Sempre, porém, fiel ao ideal romântico da juventude, como no nostálgico poema “Lembrança dos Quinze Anos”, onde cantou

E como t’esperei, anjo dos sonhos,
Ideal de mulher que me sorrias,
E me beijando nesta fronte pálida
A um mundo belo de ilusões me erguias!

Pressentindo a morte prematura, escreveu “Se eu Morresse Amanhã” e “Lembrança de Morrer”, em que pede como epitáfio (de fato gravado na lápide de seu túmulo) o verso

Foi poeta – sonhou e amou na vida.

O maior vulto do ultra-romantismo brasileiro

alvares2Álvares de Azevedo tornou-se o maior vulto do ultra-romantismo brasileiro, imortalizado nas Antologias dos grandes poetas, dono de um gênio incansável e que escreveu em pouco mais de 4 anos uma obra que muitos autores consagrados não escreveram em uma vida inteira. Não apenas volume, mas qualidade de textos brilhantes como sua Lira dos Vinte Anos, O Conde Lopo e O Poema do Frade, o conto Noite na Taverna e a peça Macário, entre inúmeros originais igualmente magníficos que se perderam em folhas avulsas. Os desvarios de sua mente febril e genial, os lampejos de extraordinária inspiração e as fantasias noturnas delirantes marcam as folhas de seus textos.

Sua obra mais conhecida, Lira dos Vinte Anos, foi inicialmente planejada para ser publicada num projeto — As Três Liras — em conjunto com Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães. Ali fica evidente a explicitação de Álvares de Azevedo na postura consciente do fazer poético. Em seus prefácios há um alto grau de conhecimento quanto à proposta ultra-romântica, a qual exibe um certo metarromantismo marcado pelo senso crítico. Foi o primeiro a incorporar o cotidiano na poesia no Brasil, com o poema Ideias íntimas:

 Minha casa não tem menores névoas
 Que as deste céu d’inverno… Solitário
 Passo as noites aqui e os dias longos…
 Dei-me agora ao charuto em corpo e alma:
 Debalde ali de um canto um beijo implora,
 Como a beleza que o Sultão despreza,
 Meu cachimbo alemão abandonado!
 Não passeio a cavalo e não namoro,
 Odeio o lasquenet… Palavra d’honra!
 Se assim me continuam por dois meses
 Os diabos azuis nos frouxos membros,
 Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

Álvares de Azevedo estabeleceu valores e critérios a sua obra. Revelou uma verdadeira teorização programada da obra, transformando-se numa verdadeira teoria do conhecimento dos textos poéticos apresentados. Um aspecto característico de sua obra e que tem estimulado mais discussão diz respeito à sua poética, que ele mesmo definiu como uma “binomia”, que consiste em aproximar extremos, numa atitude tipicamente romântica. É importante salientar o prefácio à segunda parte da Lira dos Vinte Anos, um dos pontos críticos de sua obra e na qual define toda a sua poética.

O jovem estudante de Direito tinha pressa em dar à lume uma obra primorosa e mesmo na debilidade de sua frágil saúde, não parava de compor, como se soubesse mesmo que morreria amanhã. Sentia a morte velar seu leito, e deixou versos de melancolia profunda, de amargor e de ressentimentos por uma vida perdida entre as cismas do pensar, do sonhar e do amar. Em outros, zombava da própria vida, ria da visão da Morte e maldizia o próprio ideal de romantismo que era o único sentido na sua breve existência. Sua vida reclusa em seu quartinho alugado, debruçado sobre os livros de seus poetas preferidos – Byron, Dante, Hugo, Goethe, Shelley, Shakespeare, Musset, Bocage -, além da Bíblia e sobre as folhas em branco que à custa de muita tinta e velas o ajudavam a suportar as noites de insônia, solidão e tédio, longe da casa paterna, escrevendo cartas à mãe e à irmã, ou dando vulto à sua obra poética.

O último acorde de sua lira tímida e atormentada se deu no dia 25 de abril de 1852, data de seu falecimento, aos vinte anos, vítima de um tumor na fossa ilíaca ocasionado após uma queda de cavalo no município de Itaboraí.

Baixe em formato PDF A Lira dos Vinte Anos e Poemas Malditos, seleção poética que inclui O Livro de Fra. Gondicário:

Álvares de Azevedo – Lira dos Vinte Anos
Álvares de Azevedo – Poemas Malditos

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