Archive for September 3, 2013

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Eu Quero Acreditar

A inspiração inicial para “Arquivo X”, segundo o próprio criador do seriado, Chris Carter, foi outra série de TV, “Kolchak e os Demônios da Noite”. Produzida nos anos 70 pela rede ABC, a série acompanhava o trabalho de Carl Kolchak, repórter do Independent News Service que lutava contra um assassino misterioso a cada semana e terminava o dia invariavelmente sem provas do que havia acontecido. Estrelada por Darren McGavin, a série nasceu de dois longas para TV, “The Night Stalker” (1972) e “The Night Strangler” (1973). Os adversários de Kolchak, uma seleção composta por vampiro, lobisomem, monstro do pântano e Jack, o Estripador, eram uma pista do que “Arquivo X” mostraria ao público. Kolchak e sua luta inglória contra as autoridades e os descrentes, entre eles seu chefe Tony Vincenzo, seria o molde sobre o qual Carter criaria seu personagem principal, Fox Mulder.

A partir dessa inspiração inicial, Carter construiu uma mistura de gêneros que mesclava ficção científica, terror e policial em doses que desafiavam o limite da credibilidade. O resultado foi um programa que lembrava séries como “O Livro Azul” e “Projeto UFO”, nas quais agentes da aeronáutica investigavam OVNIS e visitas alienígenas, os momentos sobrenaturais de “Além da Imaginação”, a luta do homem que sabe demais de “Os Invasores”, acompanhado da dinâmica tradicional de uma dupla de policiais que parecem opostos, mas, na verdade, são complementares. Uma das criações mais bem sucedidas de Carter foi o que a produção chamava de “a mitologia” da série. O primeiro elemento dela era a existência de um departamento no FBI em que seriam investigadas coisas fora do normal. A mitologia diz que, em 1946, o poderoso J. Edgar Hoover classificou o primeiro caso como um arquivo X, e determinou que todos os assuntos não investigados por outros departamentos seriam da alçada da nova área. Ao longo dos anos, o arquivo X tornou-se a curva de rio do Bureau, para onde iam histórias de fantasmas, avistamentos do Pé Grande e outros monstros em geral, e tudo relacionado a OVNIS e à presença de alienígenas na Terra.

O primeiro encontro entre os agentes Fox Mulder e Dana Scully aconteceu em 6 de março de 1992. Scully foi enviada para os Arquivos X para escrever relatórios desacreditando o trabalho de Mulder com base em seus conhecimentos como médica e cientista. “Eu tenho a impressão de que você veio aqui para me espionar”. diz ele.

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O principal elemento da mitologia de Arquivo X é o agente especial Fox Mulder. Psicólogo, com formação em Oxford, Mulder assombrou os instrutores da academia do FBI com sua capacidade para construir o perfil de criminosos e por seus instintos durante o trabalho de investigação. Sua performance o classificava como um agente com um grande futuro no Bureau. Esse futuro morre no momento em que Mulder fica sabendo da existência dos arquivos X e todo o seu interesse pessoal e profissional converge para lá: o agente convence seus superiores a reabrir o departamento, que pode ajudá-lo a decifrar um fantasma do passado que continua a assombrá-lo.

O que atrai Mulder à coleção de pastas no porão é o desaparecimento de sua irmã, Samantha, na noite de 27 de novembro de 1973. Encarregado de cuidar da irmã durante a ausência dos pais, Mulder é um caso clássico de culpa de sobrevivente. Sem preconceitos contra métodos não tradicionais, ou provavelmente atraído até eles justamente por não serem aceitos pelo establishment, Mulder recorre à regressão hipnótica para lembrar o que aconteceu aquela noite. É desta forma que ele descobre que Samantha foi abduzida. A busca pela irmã é o que faz de Mulder o cavaleiro do Arquivo X, e Samantha o santo graal da mitologia criada por Carter, que estabelece que sua abdução é parte de uma grande conspiração envolvendo o governo e experiências com DNA alienígena em seres humanos.

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A estrutura da série foi montada a partir daí em dois grupos de episódios, as histórias isoladas em que os vilões são monstros “comuns”, e os episódios que prosseguiam com o enredo da mitologia da série. Alimentando o interesse do público, os roteiros inseriam uma seleção de referências a diversas teorias conspiratórias que já habitavam a consciência popular, como o escândalo Watergate que derrubou o presidente Nixon nos anos 70 e o nome do trio de ajudantes de Mulder, os Pistoleiros Solitários, que saiu da mãe de todas as teorias de conspiração estadunidenses, aquela que cerca a morte do presidente John F. Kennedy. Pistoleiro solitário é o apelido da conclusão da comissão que investigou o crime de que o presidente foi morto por um único homem. A revista publicada pelo trio, Magic Bullet (Bala Mágica), também nasceu da crença de boa parte da população local de que Lee Oswald só conseguiria cometer o crime como descrito pela investigação governamental se usasse uma bala com poderes mágicos. Outras referências são mais caseiras, como o uso constante dos horários 11:21 e 10:13, uma homenagem de Carter ao aniversário de sua esposa, 21 de novembro, e ao seu, 13 de outubro, também referido no nome da sua produtora, a Ten Thirteen.

Mulder leva Scully para conhecer seus amigos Byers, Frohike e Langley no episódio “O Ser do Espaço” (E.B.E.). Enquanto Frohike se limita a observar os atrativos físicos de Scully, Langley conta vantagem de que tomou café com o sujeito que atirou em Kennedy e Byers destroi uma nota de 20 dólares para mostrar como o governo consegue manter vigilância constante sobre seus cidadãos.

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Desde o início, Carter estava convicto de que “Arquivo X” não seria apenas a “série dos OVNIs”. Ele planejava rechear as histórias com temas os mais abrangentes possíveis, mas capazes de atiçar a curiosidade e a imaginação do público sem jamais fugir da verossimilhança. A série também arriscou-se a ser diferente no fato de nem sempre apresentar uma solução clara e definitiva para os casos investigados, deixando quase sempre muita coisa em aberto,o que servia ainda mais para aumentar ainda mais a aura provocadora de arrepios. Isso acabou se tornando uma fonte de tensão entre os produtores da série e a Fox, que tinha muitas dúvidas quanto ao modo como o público poderia reagir diante de mistérios tão provocadores sem uma solução final.

“Arquivo X” foi criado para provocar calafrios no público em pleno horário nobre, mas também para instigar o espectador comum de que há muito mais coisas à sua volta do que julgava a sua vã filosofia. A série também faria compreender que o mal não era único. Uma vez vencido em uma de suas formas, seja na forma de um monstro como Eugene Tooms (“Assassino Imortal”) ou um criminoso comum como Donnie Pfaster (“Irresistível”), seja como um plano governamental, o mal voltaria sempre sob uma nova forma. É a dedicação em continuar a lutar contra esse mal que faria de Mulder e Scully personagens que o público queria acompanhar semana após semana.

Atividade Paranormal

chris_carterQuem olhasse para o criador de “Arquivo X” na época em que a série começou a ser produzida certamente se perguntaria como aquele nativo típico da Califórnia, e apaixonado por surfe, poderia ter concebido teorias tão mirabolantes sobre conspirações governamentais capazes de fazer Oliver Stone rasgar o roteiro de “JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar”. Filho de um operário da construção civil, Carter foi criado em Bellflower, obscuro subúrbio de Los Angeles. Ele e seu irmão mais jovem Craig viveram uma infância normal. Apaixonado por esportes, sobretudo beisebol, chegou a ser lançador em um time infantil, antes de aprender a surfar, quando tinha 12 anos de idade. Adulto, passou a escrever para a revista Surfing, da qual chegou a ser editor durante cinco anos logo que se formou em Jornalismo, em 1970, na Universidade Estadual da Califórnia.

Os caminhos que levaram Carter a conceber “Arquivo X” a princípio foram bastante prosaicos.  Sua esposa, a roteirista Dori Pierson, responsável, entre outros, pelo roteiro do longa “Cuidado com as Gêmeas”, insistia com ele para que escrevesse para o cinema, e seu trabalho chamou a atenção do então presidente dos estúdios Disney, Jeffrey Katzenberg (mais tarde um dos sócios-fundadores da Dreamworks SKG), que o contratou para que escrevesse um roteiro. O encontro por acidente com o presidente da emissora NBC, Brandon Tartikoff, durante um jogo de beisebol no qual Carter era o batedor, levou à sua contratação pela NBC para que escrevesse os roteiros para vários seriados e produções da emissora. Quando Tartikoff deixou a NBC rumo à presidência da Paramount Pictures, Carter atraiu a atenção de Peter Roth, presidente da Stephen J. Cannel Productions, que o levou para trabalhar na CBS. Quando Roth tornou-se presidente da divisão de produções para o canal da Fox, contratou Carter como produtor para que junto com outros jovens produtores desenvolvessem programas para a emissora.

Foto provocativa tirada durante a sessão de fotos para a matéria de capa da revista Rolling Stones, onde David Duchovny, Gillian Anderson e Chris Carter dividem a mesma cama:

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Já com uma vasta experiência como roteirista e uma facilidade incrível para escrever diálogos, Carter vinha alimentando a ideia de escrever algo mais sombrio do que as histórias que criou para a Disney e os outros canais por onde passou. Sua paixão infantil pelos seriados “Além da Imaginação”, “Alfred Hitchcock Presents” e particularmente “The Night Stalker”, filme para a TV de 1971, e a sua sequência “The Night Strangler” que deram origem ao seriado “Kolchak e os Demônios da Noite” (que foi ao ar durantes os anos de 1974 e 1975 na ABC) motivou Carter, já na Fox, a apresentar essa ideia durante um almoço com Roth na cantina da 20th Century Fox, dentro do complexo de estúdios da Fox. Roth a princípio ficou encantado com a ideia de ter vampiros fazendo parte de um programa de TV, embora Carter enfatizasse que seu novo programa estaria focado mais discos voadores e fenômenos paranormais. “Era uma coisa que estava mais ou menos adormecida na minha mente, desde que eu era criança”, disse Carter na época.

Ao mesmo tempo, a visão comercial de Carter como produtor falou tão alto quanto a sua alma de roteirista. Ele percebeu que não havia na televisão nenhum programa capaz de dar bons sustos no público em pleno horário nobre. As emissoras investiam milhões de dólares em projetos que nada mais eram do que recriações do sucesso de outros programas, e ninguém se aventurava pelos escuros corredores da criação para desenvolver nada que fosse realmente original. Ele também assimilou as limitações criativas do seriado “Kolchak” para poder fugir das armadilhas dos roteiros, que sempre faziam com que o repórter Carl Kolchak vivido por Darren McGavin tropeçasse quase que por acidente a cada semana em vampiros, lobisomens e zumbis. O lançamento do filme “O Silêncio dos Inocentes” acabou ajudando Carter a resolver essa questão: a ideia de usar o FBI como meio natural de entrada nesse mundo dos fenômenos paranormais.

Foto da capa da revista Rolling Stones. Durante anos, a possibilidade de um romance entre os dois agentes foi descartada pelo criador da série Chris Carter, para alegria dos “excers” que preferiam que o relacionamento entre eles continuasse como estava, e desespero dos “shippers”, fãs que torciam para que Mulder e Scully se envolvessem romanticamente. No final do seriado, os “shippers” saíram vitoriosos.

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Após algumas pesquisas e mudanças na estrutura, Carter chegou à base de sua ideia – de que deveria existir dentro do FBI alguém investigando casos não totalmente esclarecidos. O programa focalizaria em dois agentes do FBI – um crédulo e outro cético – encarregados de investigar os fenômenos paranormais. Um dos personagens principais teria a experiência pessoal como motivação, por haver testemunhado o sequestro de sua irmã mais nova, quando tinha doze anos de idade. Um amigo de Carter, psiquiatra e pesquisador na Universidade de Yale, ajudou-o a construir um dos temas principais do programa ao revelar que uma porcentagem razoável de pessoas no país acreditava já haverem sido sequestradas por alienígenas. Carter tratou de dar forma ao material. O agente crente recebeu o nome de solteira da mãe de Carter, e o pronome de um garoto que tinha sido seu amigo de infância. Nascia assim Fox William Mulder. A parceira de Mulder, a cética Dana Katherine Scully, recebeu o sobrenome do locutor oficial dos Los Angeles Dodgers, Vin Scully.

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Mergulhando em sua própria natureza de cidadão descrente das intenções do governo, Carter tratou de plantar as sementes daquilo que se tornaria uma parte integrante do programa – a suposição de que existem forças em ação dentro do governo americano que procuram impedir que esse tipo de informação venha à luz. Carter imaginou Mulder como o cidadão moderno que na busca do sonho americano enveredou por um caminho torturante pelo qual tentava chegar à verdade. O público acabaria se identificando com a angústia de Mulder em descobrir que as pessoas no governo escondiam fatos e não agiam de acordo com o interesse dos eleitores, fato que não é segredo na América Latina, mas que espanta os estadunidenses, por demais crédulos nas políticas de seus governantes.

Por sua vez, Scully é essencialmente orientada por seus superiores a fazer tudo o que puder para desacreditar as descobertas de Mulder com base em seus conhecimentos como médica e cientista. Um dos acontecimentos mais marcantes para a formação de Carter como jornalista foi o escândalo Watergate que levou à renúncia do presidente Nixon nos anos 70. Não é de admirar que ele tenha dado o apelido de Garganta Profunda ao primeiro informante de Mulder, uma homenagem à sombria fonte de informações que revelou aos jornalistas do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, que o governo estava envolvido nas escutas telefônicas dos escritórios do partido Democrata no que se tornaria o caso Watergate.

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Chris Carter e Peter Roth ofereceram a ideia ao vice-presidente da Fox, Bob Greenblatt, em reuniões durante o verão e o outono de 1992. As reuniões, porém, não foram muito produtivas. Greenblatt temia que seu chefe, Peter Chernin, presidente da Fox Entertainment Group, não aceitasse uma série cuja premissa implicasse a caçada por extraterrestres. “Tentei vender a ideia pela primeira vez e eles disseram: ‘Não, obrigado’. Aí eu insisti e eles finalmente responderam: ‘Está bem, vamos comprar. Agora, deixe-nos em paz'”, lembrou Carter tempos depois. A paixão de Carter pela sua criação motivou Greenblatt a aceitar o projeto, mas uma coisa ainda o perturbava: conseguir dar veracidade à uma história sobre alienígenas em uma época em que programas baseados em fatos reais estavam em alta, como “Cops” e “Emergência 911”. Por conta disso, o Piloto mostrava uma declaração escrita dizendo que a história “foi baseada em fatos realmente documentados” – o único episódio a conter esse tipo de crédito.

Uma mudança na direção do estúdio quase colocou o projeto a perder. Peter Chenin assumiu uma nova função dentro da empresa, com seu assistente, Sandy Grushow, assumindo seu cargo. Greenblatt, que já havia assumido o compromisso com Carter de produzir o seriado, precisou se reunir novamente com Grushow para apresentar os possíveis candidatos a ocupar o espaço na televisão no ano seguinte. Um dos roteiros apresentados era o de “Arquivo X”, cujo autor, segundo Greenblatt disse a Grushow, era “protegido de Brandon Tartikoff”, uma ótima credencial para um produtor relativamente desconhecido como Carter. Grushow analisou dezenas de roteiros durante o feriado de Ação de Graças de 1992, buscando conteúdo que considerasse “diferente” do que a emissora estava acostumada a exibir em seu horário nobre. O fato de a companhia produtora de “Arquivo X” também fazer parte do grupo Fox ajudou na decisão de Grushow. “É muito mais fácil correr riscos quando se trata de uma companhia do mesmo grupo”, admitiu Greenblatt.

David William Duchovny nasceu em Nova York, em 7 de agosto de 1960, e formou-se em Literatura Inglesa pela Universidade de Princeton, em 1982. Antes de viver Fox Mulder em “Arquivo X”, atuou como agente do FBI no seriado de TV “Twin Peaks”, e fez participações em filmes como “Beethoven”, “Juízo Final” e “Chaplin”., além de estrelar “Kalifornia”, ao lado de Brad Pitt e Juliette Lewis.

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Uma vez aprovada a produção do Piloto de “Arquivo X”, os produtores corriam contra o tempo para selecionar os atores que viveriam os personagens principais. A decisão sobre o papel de Mulder caiu sobre David Duchovny, mais conhecido por sua pequena atuação como um agente do FBI na série cult da ABC, “Twin Peaks”, após os primeiros testes muito graças ao seu irônico senso de humor. Porém, Duchovny não estava muito interessado em atuar na TV uma vez que sua carreira no cinema tinha dado uma guinada quando ele co-estrelou o longa “Kalifornia”, ao lado de Brad Pitt, e só aceitou porque nenhuma oferta melhor tinha chegado até aquele momento: “Eu li o roteiro e achei que era uma boa história e que os OVNIs iriam ficar chatos depois de três ou quatro episódios”, lembrou Duchovny. “Pensei em ir a Vancouver por um mês e ser pago por isso, e depois partir para o meu próximo filme.”

Gillian Leigh Anderson nasceu em Chicago, em 9 de agosto de 1968. Até a sua contratação para viver a agente do FBI Dana Scully em “Arquivo X”, a carreira de Gillian se limitava a atuações no teatro e uma pequena participação em um seriado de TV chamado “Class of 96”. Em 1997, ganhou o Emmy e o Globo de Ouro de melhor atriz em série dramática, e em 2000 tornou-se a primeira mulher a dirigir um episódio de série TV – “Todas as Coisas”, cujo roteiro ela mesma escreveu.

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Uma batalha mais dura foi travada em relação a quem viveria a parceira de Mulder, Dana Scully. Greenblatt tinha em mente uma personagem que oferecesse credibilidade no estilo da atuação de Jodie Foster em “O Silêncio dos Inocentes”, enquanto o resto dos executivos insistiam que ela deveria ser vivida por uma atriz cujos atrativos físicos se assemelhassem à estrela de “S.O.S. Malibu” (Baywatch), Pamela Anderson. Nesse ponto, a intervenção de Carter a favor de Gillian Anderson foi decisiva – ele chegou a mentir sobre a idade da atriz, então jovem demais para o papel e ameaçar deixar o projeto caso ela não fosse contratada -, e contou com o apoio de Randy Stone, encarregado do elenco do canal Fox.

“Quando ela entrou na sala eu sabia que seria escolhida para o papel de Scully”, disse Carter: “Eu senti isso. Ela mostrava uma enorme intensidade, uma coisa que sempre acaba sendo transmitida através da tela”. Gillian não tinha quase nenhuma experiência em televisão, não estava muito interessada em ficar presa a um programa de TV, mas estava quase sem dinheiro e sem nenhuma oferta de trabalho no momento. Ela acreditava que algumas semanas de exposição ajudariam seu rosto a ficar conhecido e abririam as portas para futuros trabalhos no cinema. Dois dias depois de ser contratada, ela estava a bordo de um avião para o local onde seria filmado o piloto da série.

Garganta Profunda (Deep Throat), interpretado pelo ator Jerry Hardin, foi primeiro informante de Mulder e recebeu esse apelido como homenagem à sombria fonte de informações que atuou no escândalo de Watergate. No episódio “O Ser do Espaço”, ele revela a Mulder um acordo internacional pelo qual os governos são obrigados a eliminar qualquer prova viva da existência de alienígenas no planeta e que ele mesmo chegou a matar um deles.

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Continua no próximo post…

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O tempo realmente voa. Parece que foi ontem, mas o seriado de TV “Arquivo X” está completando 20 anos de vida neste mês de setembro. “Arquivo X” estreou no canal norte-americano Fox na noite de 10 de setembro de 1993 sem fazer muito alarde. Aos poucos e graças à devoção dos fãs, o seriado foi atraindo a atenção de mais e mais pessoas, ganhou projeção mundial, tornou-se fenômeno de audiência e recebeu inúmeros prêmios importantes, entre eles o Globo de Ouro e o Emmy. O último episódio de “Arquivo X” foi ao ar em 19 de maio de 2002, com um total de 9 temporadas e 202 episódios. Dois filmes foram produzidos para a tela grande: “Arquivo X – Resista ao Futuro”, de 1998, e “Arquivo X – Eu Quero Acreditar”, de 2008.

Está iniciada a contagem regressiva para a comemoração dos 20 Anos de “Arquivo X” no dia 10 de setembro.

Atividade Paranormal

Para quem esteve fora do planeta nos últimos vinte anos, o seriado “Arquivo X” trata da rotina das investigações de dois agentes especiais do FBI, Fox William Mulder (David Duchovny) e Dana Katherine Scully (Gillian Anderson), encarregados dos Arquivos X, departamento para onde vão os casos não classificados pela agência e que envolvem fenômenos paranormais, em sua grande maioria jamais esclarecida.

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“Arquivo X” foi lançado em um período de vacas magras na TV norte-americana, quando poucos seriados de TV conseguiam atrair o interesse do público além das comédias de curta duração – as chamadas sitcoms – e que eram o carro-chefe da programação do canal Fox, como “Os Simpsons” e “Um Amor de Família”. Nessa época, um seriado dramático de TV e ainda abordando temas de ficção científica e sobrenatural era uma aposta realmente arriscada. Até então, além de “Jornada nas Estrelas” e suas várias sequências, não houve nenhuma aceitação de programas de ficção científica nos anos anteriores à estreia de “Arquivo X”. O modelo mais próximo do que os produtores do novo seriado planejavam tinha sido “Twin Peaks”, exibido na TV cerca de três anos antes, um raro exemplo de programa de TV que ousou fugir dos padrões considerados normais.

Embora o seriado abordasse Objetos Voadores Não Identificados e outros acontecimentos bizarros, a forte carga dramática era amenizada por brincadeiras e diálogos bem-humorados entre os dois personagens principais quando expunham suas teorias ou comentavam sobre suas vidas pessoais. Além de complexos e intrincados enredos envolvendo conspirações e acobertamentos governamentais, relacionados com as próprias informações que os agentes tentavam investigar e que se constituíram na chamada “mitologia” do programa, havia uma série de outras investigações paralelas que envolviam os mais diversos temas – possessão demoníaca, assassinos mutantes, bestas humanas, assombrações e os mais diversos tipos de monstros.

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Embora o relacionamento entre os personagens Mulder e Scully – que para manter o maior distanciamento pessoal possível nunca chamavam um ao outro pelo primeiro nome – tenha sido construído com muito cuidado pelo criador da série Chris Carter, ele foi desenvolvido justamente no sentido de não permitir que a série caísse nas armadilhas da atração romântica, cujo exemplo mais marcante tinha sido o seriado dos anos 80 “A Gata e o Rato”. Apesar de estreito, o relacionamento entre os dois permaneceu durante muito tempo em níveis estritamente profissionais, caracterizado pela profunda crença de Mulder nos fenômenos paranormais – motivada pela abdução de sua irmã mais nova durante a sua infância – e a fé de Scully, que é formada em Medicina e Física e busca o tempo todo explicações racionais e científicas para os fenômenos que investigam. Scully venera os símbolos religiosos, que Mulder por sua vez simplesmente ignora.

O primeiro esboço do programa foi recusado. Seu criador, Chris Carter, ex-editor de uma revista de surf, retornou com uma proposta melhor elaborada algum tempo depois. Nessa época, a Rede Fox buscava incrementar sua grade de programação colocando programas dramáticos de uma hora em horário nobre. O canal de TV estudou nada menos do que 37 diferentes ideias de programas durante a primavera de 1993, entre eles “Arquivo X”, que estava incluído na seleta lista dos onze candidatos que se encaixavam na categoria de dramas de uma hora que a Fox estava procurando. Desses, somente dois foram aprovados: “Arquivo X” e “As Aventuras de Brisco County Jr.”, um western estrelado por Bruce Campbell.

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Produzido a princípio para cobrir uma lacuna na grade de programação da emissora, “Arquivo X” era o chamado “patinho feio” do canal. Ninguém em sã consciência poderia supor o eventual sucesso do programa, consideradas as dificuldades que o mesmo oferecia ao entendimento do público com suas tramas interligadas, teorias científicas, conspirações e explicações que deixavam mais dúvidas do que respostas na mente dos espectadores. Além dessa base confusa, “Arquivo X” foi programado para apresentação na sexta-feira à noite, no horário em que a maioria do público jovem que assiste televisão está saindo de suas casas para se divertir.

Eu Quero Acreditar

“Uma escolha esquisita, mas o roteiro pode fazer funcionar”. Foi com estas palavras pouco auspiciosas que um jornal descreveu a nova atração da Fox para a temporada 1993-1994. Em Vancouver, onde o episódio piloto foi filmado, o gerente de produção J.P. Finn explicou a Todd Pittson, encarregado de locações, que o novo programa tinha “algo a ver com agentes do FBI investigando casos não resolvidos”. Sua previsão era de que com um pouco de sorte a equipe teria emprego talvez até o Natal. A seleção de ilustres desconhecidos no elenco e na equipe de produção também não incentivava o otimismo. O criador da série, Chris Carter, era um jornalista especializado em surf. Gillian Anderson era uma atriz desconhecida, com um pequeno currículo de trabalhos em teatro. David Duchovny era o mais famoso da linha de frente. Em sua filmografia estavam o filme “Kalifórnia” e o seriado “Twin Peaks”. A série cult de David Lynch era uma estrela dourada no currículo de qualquer ator, mas estava longe de ser um prato para paladares comuns. Para completar, Duchovny havia interpretado o estranho agente Dennis, que trabalhava vestido de mulher no seriado.

Nas fotos, David Duchovny e Gillian Anderson caracterizados como Mulder e Scully posam para fotos promocionais às vésperas da estreia do episódio Piloto. O visual dos personagens seria aprimorado com o tempo.

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Impulsionada pelo sucesso de “O Silêncio dos Inocentes” nos cinemas e tendo “As Aventuras de Brisco County Jr.” como sua aposta mais forte na temporada de outono de 1993, a Fox tinha aprovado “Arquivo X” sem esperar muito, e acabou tendo nas mãos um dos maiores sucessos da TV de todos os tempos. Vários fatores convergiram para o sucesso de “Arquivo X” logo em seu primeiro ano de exibição. Um deles foi a transmissão do programa que acabou sendo uma vantagem em diversos aspectos.

Relegada às noites de sexta, o seriado acabou atraindo justamente a atenção do público jovem, que esperava o programa acabar para sair de casa e aqueles que definitivamente preferiam ficar em casa assistindo TV. Sem a pressão dos executivos do canal, os produtores e roteiristas tinham muita liberdade para abordar temas polêmicos sem sofrer censuras ou cortes, inovando em todos os modelos de narrativa até então vistos em um seriado de TV. Aos poucos, a crítica foi prestando atenção nos episódios e tecendo elogios ao seriado, que começou a despertar também a curiosidade de outras parcelas da população através da propaganda boca-a-boca.

A primeira autópsia a gente nunca esquece. Na foto abaixo, Scully examina um cadáver exumado de um dos adolescentes mortos no episódio Piloto, que foi ao ar em 10 de setembro de 1993, nos Estados Unidos, e em 4 de Dezembro de 1994, no Brasil.

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O seriado acabou sendo o primeiro a se valer da crescente popularização da Internet para se tornar ainda mais conhecido, com grupos criados pelos fãs somente para discutirem os temas abordados pela série. Por fim, as histórias bem escritas, os diálogos inteligentes, os personagens bem construídos e os episódios muito bem produzidos não deixavam a dever aos melhores filmes produzidos por Hollywood naquela época, com a vantagem de durarem somente uma hora e deixarem quase sempre um “gancho” na trama para ser continuado no episódio da semana seguinte, atiçando ainda mais a curiosidade e a expectativa do público.

A primeira temporada de “Arquivo X” terminou com o seriado alcançando os seus mais elevados números de audiência, mas ainda assim muito além do que iria obter nos anos seguintes. O seriado de Chris Carter era um relativo sucesso e com um potencial enorme de crescimento para a temporada seguinte. A Fox tinha agora um programa que não apenas atraía cada vez mais público como ganhava aplausos da crítica especializada e de grupos de mídia como o Viewers for Quality Television. A consagração viria ao conquistar prêmios importantes como o Globo de Ouro e o Emmy nos anos seguintes.

“Eu Quero Acreditar”. O famoso pôster colado na parede do escritório de Mulder se tornou objeto de consumo de 10 entre 10 fãs da série. Foi visto pela primeira vez no episódio “Elo de Ligação” (Conduit), onde um menino tem um tipo de ligação psíquica com a irmã aparentemente abduzida por alienígenas e faz Mulder enfrentar seus sentimentos quanto ao desaparecimento de sua irmã Samantha.

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A fama de seriado cult permaneceu durante as temporadas seguintes, com episódios ainda mais sombrios e macabros, além de intrincados roteiros que exploravam cada vez mais a chamada “mitologia” com suas paranóias, conspirações, mortes e experiências secretas envolvendo agências do governo e colonizadores alienígenas. A terceira temporada foi marcada pelo nascimento do irmão caçula de “Arquivo X”, o seriado “Millenium”, também criado por Chris Carter, ainda mais sombrio e com histórias mais intrincadas do que aquelas vistas em “Arquivo X”. Embora jamais alcançasse o nível de sucesso de seu predecessor, “Millennium” conseguiu algo que poucos seriados conseguem, cativar um determinado seguimento de público e continuar no ar por três temporadas completas mesmo com níveis de audiência extremamente baixos.

Ao atingir o sucesso absoluto, “Arquivo X” deu início a uma nova missão, aquela de saber o que fez a série chegar aonde chegou, onde mais ela poderia ir e até quando ela conseguiria prender o interesse dos fãs. Certamente há os roteiros muito bem escritos, a mitologia que se prolonga por vários episódios e faz a ponte entre uma temporada e outra, além, é claro, da química entre os atores principais. Mas há também o momento. O programa de TV certo no momento certo. Ainda longe da paranoia terrorista pós-2001, a série captou a sensação do público de que o mundo não era um lugar seguro. Segundo Chris Carter, o bem vence muito poucas vezes e nós é que vivemos em negação quanto a este fato.

Na foto a seguir, Scully com o diretor assistente Skinner. A princípio visto com desconfiança pelos dois agentes, o diretor assistente Walter Skinner (interpretado por Mitch Pileggi) acabou se tornando um fiel aliado de Mulder e Scully em sua busca pela verdade, além de ter arriscado a própria vida diversas vezes em defesa dos dois agentes.

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“Arquivo X” prosseguiu sua escalada crescente de sucesso até o quinto ano, quando números ainda mais estrondosos transformaram o patinho feio da temporada de 1993 na série preferida dos anunciantes. Os episódios de conspiração envolvendo a mitologia foram se tornando cada vez mais complexos, enveredando por outros canais labirínticos que envolviam a clonagem de seres humanos, a criação de híbridos de humanos e alienígenas e um óleo negro com o qual os conspiradores iriam disseminar o vírus alienígena na população.

A quinta temporada foi marcada pela decisão de levar a série para o cinema antes do prazo normal em Hollywood. Ao invés de aguardar o final da série, o longa-metragem foi produzido como uma ponte entre a quinta e a sexta temporada, o que restringiu as possibilidades do roteiro tanto do filme quanto da série. Por conta da agenda apertada devido à produção do longa “Arquivo X – Resista ao Futuro”, a quinta temporada se tornou bem curta, com apenas 20 episódios produzidos, contra 25 episódios da segunda temporada, por exemplo.

David Duchovny e Gillian Anderson em ação no primeiro filme para os cinemas, “Arquivo X – Resista ao Futuro”, de 1998. A teoria da conspiração envolvendo a colonização do planeta por alienígenas ganhava a tela grande em um filme que não ficou devendo nada aos blockbusters tipo “Independence Day”, já que custou 66 milhões de dólares, o equivalente ao custo de duas temporadas completas.

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Outro aspecto marcante de “Arquivo X” foi a tensão sexual que regia o relacionamento entre Mulder e Scully desde o início, um romance feito de fiapos de evidências durante quase sete anos que jamais falhou em manter a atenção do público. Brincando com a própria decisão de manter os personagens separados, Mulder e Scully trocaram um beijo no réveillon de 1999, no episódio “Millennium”, da sétima temporada, e que terminou com um sarcástico “o mundo não acabou” do agente para sua parceira. Esse episódio, com a participação especial de lance Henriksen, prestou contas aos fãs do seriado que foi cancelado sem que o arco de sua história tivesse sido devidamente encerrado. O relacionamento de Mulder e Scully mudaria apenas nas duas temporadas finais, para desagrado de uma parte do público que insistia em que eles permanecessem amigos e aplausos daqueles que torciam pelo romance. A série, entretanto, jamais mostrou beijos apaixonados ou qualquer outra cena mais quente entre os dois.

Com o afastamento de David Duchovny durante vários episódios da oitava temporada e por quase toda a nona e última temporada, os produtores tentaram introduzir o conceito de que os personagens poderiam mudar, mas a mitologia manteria o seriado funcionando. Dois novos agentes foram introduzidos no “Arquivo X”, John Doggett (Robert Patrick) e Mônica Reyes (Annabeth Gish), com Scully aparecendo ocasionalmente. A ideia de outras pessoas no “Arquivo X”, entretanto, jamais foi aceita completamente pelos fãs e o seriado acabou encerrando sua vida na telinha na nona temporada com “A Verdade”. E com Mulder e Scully novamente juntos. Tempos depois, a Fox e Chris Carter retornaram aos personagens em um caça-níquel que tentou reativar o interesse do público novamente nas telas do cinema. “Arquivo X – Eu Quero Acreditar” reuniu David Duchovny e Gillian Anderson em uma história totalmente banal, e o filme passou despercebido. Os tempos não eram mais os mesmos.

Gillian Anderson tomou a frente do elenco de “Arquivo X” a partir da oitava temporada. A entrada de Robert Patrick como o agente John Doggett para auxiliar Scully na busca por Mulder não surtiu o efeito que os produtores queriam. Os fãs esperavam ansiosamente que David Duchovny – que se ausentou durante metade da temporada para se dedicar à sua carreira no cinema – retornasse logo à série.

Gillian Anderson, Robert Patrick, Mitch Pileggi Created by Chris Carter

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