20 anos de Arquivo X – Parte 1

Posted: September 3, 2013 in tudo o que eu amo
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O tempo realmente voa. Parece que foi ontem, mas o seriado de TV “Arquivo X” está completando 20 anos de vida neste mês de setembro. “Arquivo X” estreou no canal norte-americano Fox na noite de 10 de setembro de 1993 sem fazer muito alarde. Aos poucos e graças à devoção dos fãs, o seriado foi atraindo a atenção de mais e mais pessoas, ganhou projeção mundial, tornou-se fenômeno de audiência e recebeu inúmeros prêmios importantes, entre eles o Globo de Ouro e o Emmy. O último episódio de “Arquivo X” foi ao ar em 19 de maio de 2002, com um total de 9 temporadas e 202 episódios. Dois filmes foram produzidos para a tela grande: “Arquivo X – Resista ao Futuro”, de 1998, e “Arquivo X – Eu Quero Acreditar”, de 2008.

Está iniciada a contagem regressiva para a comemoração dos 20 Anos de “Arquivo X” no dia 10 de setembro.

Atividade Paranormal

Para quem esteve fora do planeta nos últimos vinte anos, o seriado “Arquivo X” trata da rotina das investigações de dois agentes especiais do FBI, Fox William Mulder (David Duchovny) e Dana Katherine Scully (Gillian Anderson), encarregados dos Arquivos X, departamento para onde vão os casos não classificados pela agência e que envolvem fenômenos paranormais, em sua grande maioria jamais esclarecida.

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“Arquivo X” foi lançado em um período de vacas magras na TV norte-americana, quando poucos seriados de TV conseguiam atrair o interesse do público além das comédias de curta duração – as chamadas sitcoms – e que eram o carro-chefe da programação do canal Fox, como “Os Simpsons” e “Um Amor de Família”. Nessa época, um seriado dramático de TV e ainda abordando temas de ficção científica e sobrenatural era uma aposta realmente arriscada. Até então, além de “Jornada nas Estrelas” e suas várias sequências, não houve nenhuma aceitação de programas de ficção científica nos anos anteriores à estreia de “Arquivo X”. O modelo mais próximo do que os produtores do novo seriado planejavam tinha sido “Twin Peaks”, exibido na TV cerca de três anos antes, um raro exemplo de programa de TV que ousou fugir dos padrões considerados normais.

Embora o seriado abordasse Objetos Voadores Não Identificados e outros acontecimentos bizarros, a forte carga dramática era amenizada por brincadeiras e diálogos bem-humorados entre os dois personagens principais quando expunham suas teorias ou comentavam sobre suas vidas pessoais. Além de complexos e intrincados enredos envolvendo conspirações e acobertamentos governamentais, relacionados com as próprias informações que os agentes tentavam investigar e que se constituíram na chamada “mitologia” do programa, havia uma série de outras investigações paralelas que envolviam os mais diversos temas – possessão demoníaca, assassinos mutantes, bestas humanas, assombrações e os mais diversos tipos de monstros.

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Embora o relacionamento entre os personagens Mulder e Scully – que para manter o maior distanciamento pessoal possível nunca chamavam um ao outro pelo primeiro nome – tenha sido construído com muito cuidado pelo criador da série Chris Carter, ele foi desenvolvido justamente no sentido de não permitir que a série caísse nas armadilhas da atração romântica, cujo exemplo mais marcante tinha sido o seriado dos anos 80 “A Gata e o Rato”. Apesar de estreito, o relacionamento entre os dois permaneceu durante muito tempo em níveis estritamente profissionais, caracterizado pela profunda crença de Mulder nos fenômenos paranormais – motivada pela abdução de sua irmã mais nova durante a sua infância – e a fé de Scully, que é formada em Medicina e Física e busca o tempo todo explicações racionais e científicas para os fenômenos que investigam. Scully venera os símbolos religiosos, que Mulder por sua vez simplesmente ignora.

O primeiro esboço do programa foi recusado. Seu criador, Chris Carter, ex-editor de uma revista de surf, retornou com uma proposta melhor elaborada algum tempo depois. Nessa época, a Rede Fox buscava incrementar sua grade de programação colocando programas dramáticos de uma hora em horário nobre. O canal de TV estudou nada menos do que 37 diferentes ideias de programas durante a primavera de 1993, entre eles “Arquivo X”, que estava incluído na seleta lista dos onze candidatos que se encaixavam na categoria de dramas de uma hora que a Fox estava procurando. Desses, somente dois foram aprovados: “Arquivo X” e “As Aventuras de Brisco County Jr.”, um western estrelado por Bruce Campbell.

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Produzido a princípio para cobrir uma lacuna na grade de programação da emissora, “Arquivo X” era o chamado “patinho feio” do canal. Ninguém em sã consciência poderia supor o eventual sucesso do programa, consideradas as dificuldades que o mesmo oferecia ao entendimento do público com suas tramas interligadas, teorias científicas, conspirações e explicações que deixavam mais dúvidas do que respostas na mente dos espectadores. Além dessa base confusa, “Arquivo X” foi programado para apresentação na sexta-feira à noite, no horário em que a maioria do público jovem que assiste televisão está saindo de suas casas para se divertir.

Eu Quero Acreditar

“Uma escolha esquisita, mas o roteiro pode fazer funcionar”. Foi com estas palavras pouco auspiciosas que um jornal descreveu a nova atração da Fox para a temporada 1993-1994. Em Vancouver, onde o episódio piloto foi filmado, o gerente de produção J.P. Finn explicou a Todd Pittson, encarregado de locações, que o novo programa tinha “algo a ver com agentes do FBI investigando casos não resolvidos”. Sua previsão era de que com um pouco de sorte a equipe teria emprego talvez até o Natal. A seleção de ilustres desconhecidos no elenco e na equipe de produção também não incentivava o otimismo. O criador da série, Chris Carter, era um jornalista especializado em surf. Gillian Anderson era uma atriz desconhecida, com um pequeno currículo de trabalhos em teatro. David Duchovny era o mais famoso da linha de frente. Em sua filmografia estavam o filme “Kalifórnia” e o seriado “Twin Peaks”. A série cult de David Lynch era uma estrela dourada no currículo de qualquer ator, mas estava longe de ser um prato para paladares comuns. Para completar, Duchovny havia interpretado o estranho agente Dennis, que trabalhava vestido de mulher no seriado.

Nas fotos, David Duchovny e Gillian Anderson caracterizados como Mulder e Scully posam para fotos promocionais às vésperas da estreia do episódio Piloto. O visual dos personagens seria aprimorado com o tempo.

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Impulsionada pelo sucesso de “O Silêncio dos Inocentes” nos cinemas e tendo “As Aventuras de Brisco County Jr.” como sua aposta mais forte na temporada de outono de 1993, a Fox tinha aprovado “Arquivo X” sem esperar muito, e acabou tendo nas mãos um dos maiores sucessos da TV de todos os tempos. Vários fatores convergiram para o sucesso de “Arquivo X” logo em seu primeiro ano de exibição. Um deles foi a transmissão do programa que acabou sendo uma vantagem em diversos aspectos.

Relegada às noites de sexta, o seriado acabou atraindo justamente a atenção do público jovem, que esperava o programa acabar para sair de casa e aqueles que definitivamente preferiam ficar em casa assistindo TV. Sem a pressão dos executivos do canal, os produtores e roteiristas tinham muita liberdade para abordar temas polêmicos sem sofrer censuras ou cortes, inovando em todos os modelos de narrativa até então vistos em um seriado de TV. Aos poucos, a crítica foi prestando atenção nos episódios e tecendo elogios ao seriado, que começou a despertar também a curiosidade de outras parcelas da população através da propaganda boca-a-boca.

A primeira autópsia a gente nunca esquece. Na foto abaixo, Scully examina um cadáver exumado de um dos adolescentes mortos no episódio Piloto, que foi ao ar em 10 de setembro de 1993, nos Estados Unidos, e em 4 de Dezembro de 1994, no Brasil.

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O seriado acabou sendo o primeiro a se valer da crescente popularização da Internet para se tornar ainda mais conhecido, com grupos criados pelos fãs somente para discutirem os temas abordados pela série. Por fim, as histórias bem escritas, os diálogos inteligentes, os personagens bem construídos e os episódios muito bem produzidos não deixavam a dever aos melhores filmes produzidos por Hollywood naquela época, com a vantagem de durarem somente uma hora e deixarem quase sempre um “gancho” na trama para ser continuado no episódio da semana seguinte, atiçando ainda mais a curiosidade e a expectativa do público.

A primeira temporada de “Arquivo X” terminou com o seriado alcançando os seus mais elevados números de audiência, mas ainda assim muito além do que iria obter nos anos seguintes. O seriado de Chris Carter era um relativo sucesso e com um potencial enorme de crescimento para a temporada seguinte. A Fox tinha agora um programa que não apenas atraía cada vez mais público como ganhava aplausos da crítica especializada e de grupos de mídia como o Viewers for Quality Television. A consagração viria ao conquistar prêmios importantes como o Globo de Ouro e o Emmy nos anos seguintes.

“Eu Quero Acreditar”. O famoso pôster colado na parede do escritório de Mulder se tornou objeto de consumo de 10 entre 10 fãs da série. Foi visto pela primeira vez no episódio “Elo de Ligação” (Conduit), onde um menino tem um tipo de ligação psíquica com a irmã aparentemente abduzida por alienígenas e faz Mulder enfrentar seus sentimentos quanto ao desaparecimento de sua irmã Samantha.

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A fama de seriado cult permaneceu durante as temporadas seguintes, com episódios ainda mais sombrios e macabros, além de intrincados roteiros que exploravam cada vez mais a chamada “mitologia” com suas paranóias, conspirações, mortes e experiências secretas envolvendo agências do governo e colonizadores alienígenas. A terceira temporada foi marcada pelo nascimento do irmão caçula de “Arquivo X”, o seriado “Millenium”, também criado por Chris Carter, ainda mais sombrio e com histórias mais intrincadas do que aquelas vistas em “Arquivo X”. Embora jamais alcançasse o nível de sucesso de seu predecessor, “Millennium” conseguiu algo que poucos seriados conseguem, cativar um determinado seguimento de público e continuar no ar por três temporadas completas mesmo com níveis de audiência extremamente baixos.

Ao atingir o sucesso absoluto, “Arquivo X” deu início a uma nova missão, aquela de saber o que fez a série chegar aonde chegou, onde mais ela poderia ir e até quando ela conseguiria prender o interesse dos fãs. Certamente há os roteiros muito bem escritos, a mitologia que se prolonga por vários episódios e faz a ponte entre uma temporada e outra, além, é claro, da química entre os atores principais. Mas há também o momento. O programa de TV certo no momento certo. Ainda longe da paranoia terrorista pós-2001, a série captou a sensação do público de que o mundo não era um lugar seguro. Segundo Chris Carter, o bem vence muito poucas vezes e nós é que vivemos em negação quanto a este fato.

Na foto a seguir, Scully com o diretor assistente Skinner. A princípio visto com desconfiança pelos dois agentes, o diretor assistente Walter Skinner (interpretado por Mitch Pileggi) acabou se tornando um fiel aliado de Mulder e Scully em sua busca pela verdade, além de ter arriscado a própria vida diversas vezes em defesa dos dois agentes.

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“Arquivo X” prosseguiu sua escalada crescente de sucesso até o quinto ano, quando números ainda mais estrondosos transformaram o patinho feio da temporada de 1993 na série preferida dos anunciantes. Os episódios de conspiração envolvendo a mitologia foram se tornando cada vez mais complexos, enveredando por outros canais labirínticos que envolviam a clonagem de seres humanos, a criação de híbridos de humanos e alienígenas e um óleo negro com o qual os conspiradores iriam disseminar o vírus alienígena na população.

A quinta temporada foi marcada pela decisão de levar a série para o cinema antes do prazo normal em Hollywood. Ao invés de aguardar o final da série, o longa-metragem foi produzido como uma ponte entre a quinta e a sexta temporada, o que restringiu as possibilidades do roteiro tanto do filme quanto da série. Por conta da agenda apertada devido à produção do longa “Arquivo X – Resista ao Futuro”, a quinta temporada se tornou bem curta, com apenas 20 episódios produzidos, contra 25 episódios da segunda temporada, por exemplo.

David Duchovny e Gillian Anderson em ação no primeiro filme para os cinemas, “Arquivo X – Resista ao Futuro”, de 1998. A teoria da conspiração envolvendo a colonização do planeta por alienígenas ganhava a tela grande em um filme que não ficou devendo nada aos blockbusters tipo “Independence Day”, já que custou 66 milhões de dólares, o equivalente ao custo de duas temporadas completas.

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Outro aspecto marcante de “Arquivo X” foi a tensão sexual que regia o relacionamento entre Mulder e Scully desde o início, um romance feito de fiapos de evidências durante quase sete anos que jamais falhou em manter a atenção do público. Brincando com a própria decisão de manter os personagens separados, Mulder e Scully trocaram um beijo no réveillon de 1999, no episódio “Millennium”, da sétima temporada, e que terminou com um sarcástico “o mundo não acabou” do agente para sua parceira. Esse episódio, com a participação especial de lance Henriksen, prestou contas aos fãs do seriado que foi cancelado sem que o arco de sua história tivesse sido devidamente encerrado. O relacionamento de Mulder e Scully mudaria apenas nas duas temporadas finais, para desagrado de uma parte do público que insistia em que eles permanecessem amigos e aplausos daqueles que torciam pelo romance. A série, entretanto, jamais mostrou beijos apaixonados ou qualquer outra cena mais quente entre os dois.

Com o afastamento de David Duchovny durante vários episódios da oitava temporada e por quase toda a nona e última temporada, os produtores tentaram introduzir o conceito de que os personagens poderiam mudar, mas a mitologia manteria o seriado funcionando. Dois novos agentes foram introduzidos no “Arquivo X”, John Doggett (Robert Patrick) e Mônica Reyes (Annabeth Gish), com Scully aparecendo ocasionalmente. A ideia de outras pessoas no “Arquivo X”, entretanto, jamais foi aceita completamente pelos fãs e o seriado acabou encerrando sua vida na telinha na nona temporada com “A Verdade”. E com Mulder e Scully novamente juntos. Tempos depois, a Fox e Chris Carter retornaram aos personagens em um caça-níquel que tentou reativar o interesse do público novamente nas telas do cinema. “Arquivo X – Eu Quero Acreditar” reuniu David Duchovny e Gillian Anderson em uma história totalmente banal, e o filme passou despercebido. Os tempos não eram mais os mesmos.

Gillian Anderson tomou a frente do elenco de “Arquivo X” a partir da oitava temporada. A entrada de Robert Patrick como o agente John Doggett para auxiliar Scully na busca por Mulder não surtiu o efeito que os produtores queriam. Os fãs esperavam ansiosamente que David Duchovny – que se ausentou durante metade da temporada para se dedicar à sua carreira no cinema – retornasse logo à série.

Gillian Anderson, Robert Patrick, Mitch Pileggi Created by Chris Carter

Continua no próximo post.

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