20 Anos de Arquivo X – Parte 4

Posted: September 5, 2013 in tudo o que eu amo
Tags: , ,

x-files-banner

Para ler a Parte 3, clique aqui.

Não confie em ninguém

Aos poucos, “Arquivo X” vinha conquistando um público cativo nas noites de sexta-feira. Chris Carter sempre deu crédito ao boca-a-boca como primeiro motor do sucesso da série. Estacionada nas noites de sexta, “Arquivo X” procurava justamente o público que não estava lá, jovens que costumam sair para se divertir naquele horário. Embora ainda não fosse um sucesso estrondoso, a primeira temporada deu à série um público fiel, e é considerada uma das pioneiras da Internet. Em 1994 a rede já tinha um newsgroup dedicado ao programa e, no mesmo ano, um grupo de discussão criado por um fã na rede Delphi foi transformado no site oficial da série.

A crítica especializada vinha tecendo constantes elogios sobre a qualidade das histórias e o ótimo nível de produção. A série começava a colecionar prêmios importantes, o principal deles um Emmy pela realização individual em designer gráfico e sequências de títulos para James Castle, Bruce Bryant e Carol Johnsen, os responsáveis pela criativa abertura do seriado, pontuada pelo sombrio tema composto por Mark Snow (que você pode ouvir clicando aqui). Outros prêmios importantes foram o Saturn Award, como destacada série de televisão, o Parent’s Choice de melhor série, o Monitor Awards de melhor edição para James Coblenz por “O Vidente”, o Prêmio Hollywood Digital de melhor roteiro para James Wong e Glen Morgan por “O Vidente”, e o cobiçado Globo de Ouro de melhor série dramática de 1994.

.

Tudo ia muito bem para “Arquivo X” quando em um belo dia próximo ao fim da primeira temporada a atriz Gillian Anderson descobriu que estava grávida. Gillian confessou depois que ficou com muito medo de ser despedida do programa, confidenciando sobre sua condição primeiro a David Duchovny e depois a Chris Carter. Independente de qual possa ter sido a irada retórica por trás das portas dos escritórios executivos, aparentemente a substituição de Gillian Anderson jamais chegou a ser considerada, embora a noticia tenha sido mantida em segredo do restante da equipe e da imprensa durante vários meses.

x-files-1

Naturalmente a notícia a princípio caiu como uma bomba nos altos círculos executivos do canal Fox, em um momento crítico no ciclo do programa e no que uma situação como essa poderia acarretar nos cronogramas de produção, sobretudo para um programa de apenas dois personagens. “Como executivo, se você não se apavora diante de um fato como este, então você não tem sangue nas veias”, disse Sandy Grushow, presidente do canal Fox. “Acho que ficamos todos muito chateados”, lembra Peter Roth, chefe de produção da Fox, observando que vários caminhos possíveis foram imaginados para transformar aquela situação de desvantagem em algo que não se tornasse um problema ainda maior e, com um pouco de sorte e criatividade, transformá-la em uma vantagem para o seriado. Cogitou-se até mesmo a possibilidade de Scully dar à luz um bebê alienígena, antes de os produtores optarem pela solução vista no arco da trilogia de episódios “Duane Barry”, “A Ascensão” e “Por um Fio”, que explicaram a participação limitada de Scully por conta de sua provável abdução por alienígenas.

Essa linha de argumento já tinha sido decidida antes mesmo do episódio final da primeira temporada, “Jogo de Gato e Rato”, considerado por muitos fãs como o ponto de curva do seriado até aquele momento e que preparou o caminho para a gravidez de Gillian e fez o mergulho mais profundo até então no que viria a ser conhecida como a “mitologia” de “Arquivo X”: híbridos de humanos e alienígenas que uma vez feridos liberavam um gás altamente tóxico, clonagem de seres humanos através de um programa genético chamado “Controle de Pureza” que misturava DNA alienígena e humano, e o primeiro fechamento dos Arquivos X, com Mulder e Scully sendo separados e transferidos de função. O ponto culminante foi o assassinato de Garganta Profunda em uma queima de arquivo. Suas últimas palavras para Scully, “Não confie em ninguém” (Trust no one) se tornariam o principal lema da série. Do mesmo modo que aconteceu no primeiro episódio, o Canceroso é visto no armazém do Pentágono, onde coloca o feto alienígena ao lado de outros objetos misteriosos.

x-files-5

A reinvenção de uma ideia

A segunda temporada foi um desafio desgastante para os produtores, os roteiristas e o elenco de “Arquivo X” em todos os sentidos. Desenvolvido o plano para contornar as breves ausências de Gillian Anderson, foi preciso muita criatividade para filmar seu físico, que mudava gradativamente, basicamente através de close-ups e utilizando o tempo todo uma dublê para as cenas de ação. Por conta de tudo isso, “Homenzinhos Verdes” (Little Green Men” é quase um novo piloto onde com o fechamento dos Arquivos X, Mulder é destacado para atuar em entediantes escutas telefônicas enquanto Scully volta a dar aulas em Quântico.

No episódio Piloto, Mulder fazia referência a seu contato no Congresso, e aqui ele aparece na figura do senador Richard Matheson (vivido por Raymond J. Barry), uma homenagem ao lendário escritor de ficção científica, autor de “Em Algum Lugar do Passado” e “Eu sou a Lenda”. Carter queria que o personagem fosse interpretado por Darren McGavin, ex-astro do seriado “Kolchak e os Demônios da Noite”, mas isso não aconteceu. É o senador Matheson quem coloca Mulder a par de um sinal alienígena interceptado pela nave Voyager que o leva até Porto Rico para investigar.

A sequência em flashback da abdução de Samantha em “Os Homenzinhos Verdes” é diferente da lembrança inicial de Mulder em “Elo de Ligação” (Conduit), da temporada anterior. Na primeira versão, os dois irmãos estão deitados em suas camas, e não acordados, jogando estratégia. Para Carter, essa diferença era resultado da terapia de regressão hipnótica a que Mulder se submeteu, mostrando o quanto vagas e sugestionáveis eram essas lembranças.

x-files-2

A separação dos agentes continuou em mais alguns episódios da segunda temporada, com Scully prestando auxílio a Mulder em casos mais extremos como em “O Hospedeiro”, “Sangue” e “Sem Dormir”. Neste último, conhecemos o novo parceiro de Mulder, Alex Krycek (interpretado por Nicholas Lea, que já havia feito uma breve aparição como uma das vítimas de “Assassino ou Assassina”, da temporada anterior) e que esconde vários segredos que o transformarão em um dos mais odiados vilões da série. Também nos é apresentado o novo informante de Mulder, o Sr. X (interpretado por Steven Williams, famoso na época pelo seriado “Anjos da Lei”), cuja voz já tinha sido ouvida através de uma ligação telefônica no final de “O Hospedeiro”.

Em “Duane Barry”, Mulder investiga a história de um homem que afirma ter sido abduzido diversas vezes por alienígenas e a participação do governo norte-americano nesses incidentes. Percebendo que separar os dois agentes apenas tornou-os ainda mais unidos, é dada uma ordem para sequestrar Scully. Ela foi atacada e levada de sua casa pelo enlouquecido Duane Barry para o alto de uma montanha onde teria sido abduzida.

Na foto abaixo, David Duchovny faz suas próprias acrobacias no alto do teleférico que levava ao topo da montanha Skyland, para onde Duane Barry sequestrou Scully, em “A Ascensão”.

x-files-3

Gillian trabalhou com dedicação até seis dias antes do nascimento de sua filha, Piper, a 25 de setembro de 1994, retribuindo ao máximo que pôde as enormes exceções que estavam sendo feitas em seu favor. Durante esse período, Gillian perdeu apenas um episódio (“A Trindade”, uma história bizarra sobre vampiros e o único episódio em que Mulder trabalha sozinho) e apenas alguns dias após dar à luz por meio de uma operação cesariana, sentindo tonturas e exausta, a atriz estava de volta para suas cenas pós-abdução em “Por um Fio”.

A complexa história dessa trilogia não só solidificou a união de Mulder e Scully como provocou uma reação extremamente favorável entre os fãs quando as experiências pessoais dos dois agentes se intensificaram e ganharam um caráter ainda mais emocional, tornando-se mais do que nunca fundamentais para o desenvolvimento do programa. “Acho que esse acontecimento nos obrigou a tomar  decisões que ajudaram a série”, comentou Carter. “Mostrou-nos que as pessoas queriam programas sobre os personagens e suas vidas”.

Na foto abaixo, a alma de Scully é vista no meio de um lago enquanto seu corpo permanece em coma no hospital, em “Por um Fio”. O sequestro de Scully faz um paralelo com o sequestro da irmã de Mulder, criando um forte apelo dramático que irá perdurar pelas três temporadas seguintes. 

x-files-4

A Fox apressou-se em renovar o contrato com o seriado por mais uma temporada, enquanto “As Aventuras de Brisco County Jr.” foi mandado para o espaço literalmente. Ao mesmo tempo em que os novos episódios mantinham o público fiel, as reprises se encarregavam de recrutar a atenção de novos fãs curiosos em saber como tinham sido os primeiros episódios. Esse efeito bola de neve foi comprovado pelos índices de audiência que praticamente duplicaram em relação ao ano anterior, com “Arquivo X” sendo o 62º programa mais assistido entre um total de 142. A Fox teve por grande mérito a paciência de permitir que o programa alcançasse esses níveis, mesmo com todas as dificuldades. A maior delas com relação ao conteúdo do programa. Com sua mistura de policial, ficção científica e terror, era claro que “Arquivo X” teria seus problemas com uma parte do público e, principalmente, com uma parte dos canais exibidores e grupos que insistiam em impor algum tipo de censura e tentavam regulamentar o que podia ou não ser mostrado na televisão.

No Reino Unido a Sky One ganhou notoriedade ao passar a tesoura em “Os Adoradores das Trevas” (“Die Hand die Verletz”). O episódio é uma história isolada em que Mulder e Scully investigam um caso de culto ao demônio em uma escola. Ao todo, o episódio em que Mulder diz uma de suas grandes frases, “você não pode chamar o demônio e depois pedir para ele se comportar”, perdeu mais de dois minutos de duração. Outros episódios vítima dos olhos sensíveis da Sky One foram “Ossos Frescos” (“Fresh Bones”) e “Sangue” (“Blood”). O motivo era tão “nobre” quanto a ação era inútil. As cenas cortadas eram as mais gráficas e aquelas que envolviam armas brancas. Mais tarde, quando a série mudou de canal, os episódios foram exibidos sem cortes.

x-files-humbug

Com uma tonalidade indubitavelmente bizarra, a aventura de Mulder e Scully pelo terreno do humor negro em “A Fraude” (Humbug) nasceu de uma sugestão de Glen Morgan a seu irmão Darin para que escrevesse um roteiro sobre aberrações de circo. Ao assistir um vídeo com atuações de Jim Rose e do Enigma, Darin Morgan decidiu dar aos dois importantes papéis no episódio mesmo sem nunca terem atuado antes como atores. No episódio, Mulder e Scully investigam a morte estranha de um contorcionista aposentado, em uma cidade habitada por vários artistas de circo aposentados. Mulder conclui que o responsável pela morte é Leonard, o irmão gêmeo de Lanny, que embora precisasse estar colado ao corpo do irmão para sobreviver, conseguia soltar-se por alguns instantes para cometer assassinatos. Com diversos personagens curiosos, o episódio, o primeiro assumidamente cômico, acabou sendo um grande sucesso entre os fãs.

Abaixo, o mutante Flukeman, de “O Hospedeiro”. Darin Morgan, que desempenhou o papel, é irmão do co-produtor executivo Glen Morgan, e levava seis horas para ser colocado dentro da fantasia. Depois dessa participação torturante, ele se tornou roteirista da série. escrevendo episódios memoráveis como “A Fraude” (Humbug) e “O Repouso Final de Clyde Bruckman” (Clyde Bruckman’s Final Repose).

x-files-6

Uma cena que quase se perdeu foi aquela em “O Hospedeiro” quando um operário infectado vomita um grande verme no banheiro. Outra cena de forte impacto foi a morte de uma criança atropelada por um trem em “Os Calusaris”, que possui ainda a antológica cena do exorcismo. Por sua vez, “Irresistível” (Irresistible) teve o seu roteiro original recusado pelo departamento de padrões da Fox, considerado “inaceitável para os modelos praticados na televisão”. Carter precisou reformular seu psicopata Donnie Pfaster de necrófilo para um “fetichista da morte”, disfarçando qualquer sinal de sexualidade aberta na sua obsessão de matar pessoas e colecionar partes dos corpos de suas vítimas. Por sua vez, “Nossa Cidade” (Our Town) fazia referência a canibalismo praticado em uma pequena cidade do sul dos Estados unidos. Esses episódios todos acabaram fazendo da segunda temporada a mais sombria e macabra de todas.

A luta contra a censura, na verdade, começava na produção, quando Carter tinha de defender as cenas mais sangrentas ou nojentas para o pessoal da equipe de Standards and Practices do estúdio. Uma vez aprovados pela Fox, no entanto, o público esperava poder assistir à sua série em paz. Ainda que fossem raras, essas intervenções no conteúdo mais violento ou gráfico acabou sendo benéfico no sentido em que obrigou seus responsáveis a serem contadores de histórias ainda melhores. “Tivemos de fazer tudo fora da tela, sugerir coisas. Acho que isso torna o programa ainda mais assustador”, comentou Carter. Um dos aspectos mais polêmicos de “Arquivo X”, por sua vez, passou em branco pela censura: a premissa de que o governo norte-americano estava por trás de uma generalizada atividade de acobertamentos visando impedir que o público tomasse conhecimento da existência de extraterrestres no planeta. A frases de “Arquivo X” simbolizam bem a descrença de seu criador nas políticas do governo norte-americano.

Frases  como “Eu Quero Acreditar”, “Negue Tudo” ou “A Verdade Está Lá Fora”, passaram a fazer parte do vocabulário das ruas e mais de um colega de escritório descobriu a senha do vizinho de mesa digitando “trustno1” (“Não confie em ninguém”) e que acabou virando a senha do computador de Mulder.

x-files-mulder-1

Enquanto a primeira temporada seguiu com os produtores muitas vezes tateando no escuro e atirando sem saber direito em que iriam acertar, a segunda temporada foi marcada por um maior equilíbrio entre os episódios, tanto na qualidade dos roteiros quanto na excelência dos recursos de produção, que incluíam sofisticados efeitos especiais, maquiagem e truques com efeitos visuais, muitos deles nunca vistos antes em um programa de TV. Outro aspecto inovador por parte de “Arquivo X” para os modelos de seriados que viriam depois foi a opção dos produtores de permitir que seus autores ousassem em vários aspectos em sua estrutura, narrativa e ideias. Carter sempre esteve aberto a sugestões e contribuições de seus colegas, inclusive do elenco, no processo criativo.

David Duchovny, por exemplo, começou a contribuir com ideias próprias para diversos episódios a partir da segunda temporada. Um deles foi o importante episódio duplo “A Colônia” (The Colony) e “Fim de Jogo” (End Game), baseado em uma história sua e de Chris Carter que abordava a clonagem de seres humanos, os híbridos alienígenas e a primeira das muitas aparições na série de um clone de Samantha, a irmã desaparecida do agente. Os episódios introduzem o Caçador de Recompensas alienígena (interpretado por Brian Thompson), encarregado de eliminar os clones criados em um programa não-oficial do governo norte-americano, e mostra pela primeira vez os pais de Mulder, William (Peter Donat) e Tena (Rebecca Noolan). Foi também a primeira vez em “Arquivo X” que foi usado o recurso de se contar uma história em flashback.

A luta épica entre o diretor assistente Walter Skinner e o Sr. X dentro do elevador para arrancar dele a informação sobre o paradeiro de Mulder e a torre do submarino que afunda no gelo, construída em tamanho natural em um estúdio refrigerado para simular o ambiente ártico, nos episódios “A Colônia” e “Fim de Jogo” são dois dos grandes momentos da segunda temporada.

x-files-x

Assim como “Jogo de Gato e Rato” foi a cereja no alto do bolo na primeira temporada, “Anasazi” foi o seu correspondente ao encerrar a segunda temporada deixando como “gancho” a improvável morte de Mulder depois de ter sido encurralado dentro de um vagão enterrado no deserto, repleto de cadáveres híbridos, que é incinerado a mando do Canceroso. A razão disso foi uma fita digital contendo material secreto reunindo toda informação do governo norte-americano sobre atividades extraterrestres no planeta desde os anos 40, que vai parar nas mãos de Mulder. O passado de colaborador do pai de Mulder com os conspiradores vem à tona, mas ele é assassinado pelo agente renegado Alex Krycek antes que pudesse dizer toda a verdade ao filho. Para evitar que Mulder cometesse assassinato atirando em Krycek, Scully atira primeiro em Mulder e o leva para uma reserva de índios Navajos que podem traduzir o conteúdo dos arquivos, escrito nesse idioma.

O episódio final da segunda temporada, “Anasazi” teve o lema “A Verdade Está lá Fora” na sequência de abertura da série  traduzido para “Éí ‘AaníígÓÓ ‘Áhoot’é” (“The truth is far from here” no idioma Navajo). O idioma foi utilizado pelos americanos em suas transmissões durante a Segunda Guerra Mundial por ser o único que os alemães não conseguiam decifrar.

x-files-9

Continua no próximo post…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s