20 Anos de Arquivo X – Parte 5

Posted: September 5, 2013 in tudo o que eu amo
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Negue tudo

Muitos tentaram traduzir em palavras os diversos fatores que convergiram para que “Arquivo X” se tornasse o maior fenômeno televisivo dos anos 90, provavelmente o maior já visto até hoje. Antes de qualquer coisa, “Arquivo X” é produto da visão cuidadosamente reservada de Chris Carter, que cuidou pessoalmente de cada detalhe de produção desde a sua concepção até o seu encerramento. Uma ideia transformada em realidade graças à uma equipe genial escolhida a dedo e que trabalhava incansavelmente para cumprir uma agenda de produção extremamente desgastante. Dois atores em total entrega e que, além disso, demonstravam uma incrível cumplicidade atuando juntos. Histórias muito bem escritas, personagens interessantes e bem construídos, uma infinidade de temas abordados e uma trama complexa que simbolizava a descrença de muitas pessoas nas instituições governamentais.

O mesmo questionamento de autoridade que motivou Carter a criar o personagem Garganta Profunda em homenagem ao escândalo de Watergate, também se manifestava nas frases que ele estrategicamente ia colocando durante a série, a primeira delas “Não confie em ninguém”, que substituiu “A verdade está lá fora” nos créditos de abertura de “Jogo de gato e Rato”. Chris Carter percebeu que tinha escolhido a combinação ideal de condições que fariam “Arquivo X” atingir o sucesso de público e de crítica logo nas duas primeiras temporadas. O relacionamento muitas vezes brincalhão, mas sempre respeitoso entre os dois agentes logo se transformou em uma atração a mais, cuidadosamente evitando as armadilhas do envolvimento romântico entre eles.

No episódio “O Instigador”, somos apresentados ao criminoso psíquico Robert Modell, capaz de impor sua vontade às pessoas, forçando a se suicidarem. Ele e Mulder travam um poderoso duelo mental quando Modell obriga o agente a jogar roleta russa com ele, e causou tamanho impacto que o ator Robert Wisden retornaria ao personagem no episódio “Caça à Raposa”, na quinta temporada da série.

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Mais do que tudo, “Arquivo X” conseguiu se sobressair por ser simplesmente assustador. Os perigos iniciais compreendiam uma variedade de ameaças jamais vistas antes na televisão. Nunca antes imagens tão macabras e criaturas tão terríveis haviam sido mostradas no horário nobre da televisão. O destaque para o horror puro e simples era extremamente fora do comum para um programa com personagens tão sofisticados e uma história de fundo de tamanha complexidade. Quando essa poderosa mistura de qualidades foi traduzida em números de audiência, “Arquivo X” conquistou o interesse da imprensa, com as fotos de seus astros estampadas em quase todas as revistas de grande circulação.

A mudança de exibição de “Arquivo X” para as noites de domingo ajudaram o seriado não só a manter o público já conquistado, como permitiu que um novo público se formasse. Mesmo tendo que se desdobrar para cuidar de “Arquivo X” e do novo programa que desenvolveu para a Fox, “Millennium”, Chris Carter sabia que podia contar com uma equipe de grande capacidade em ambos os núcleos de produção. Roteiristas que são constantemente desafiados a desenvolver as mais fantásticas e assombrosas ideias, diretores de aguçada visão e capazes de tornar a narrativa de um episódio mais eletrizante do que muitos longas de ação produzidos por Hollywood, e técnicos competentíssimos e que vivem o tempo todo buscando novos modos de capturar a imagem ideal e em desenvolver efeitos especiais que possam ser apresentados de maneira criativa a um custo mais ou menos fácil de controlar.

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Com uma equipe de produção dividida entre Vancouver e Los Angeles, outro fator importante para o sucesso de “Arquivo X” foi a interação entre ambas as equipes. Por temporada, o processo de produção envolvia a criação de vários episódios simultâneos em estágios diferentes: concepção da ideia, roteiro, pré-produção, filmagem, edição e pós-produção, que envolvia também música e efeitos visuais. A equipe de Los Angeles incluía o gênio dos efeitos especiais Mat Beck e o mestre da pós-produção Paul Rabwin – o responsável, por exemplo, por ter feito com a boca o efeito sonoro “fffttt” para o estilete alienígena visto em “A Colônia” -, além do compositor Mark Snow. Os episódios de “Arquivo X” nem eram tão caros se comparados a outros seriados de TV da mesma época. Os episódios da segunda temporada foram realizados a uma média de um milhão e duzentos mil dólares cada.

Mat Beck trabalhou em filmes como “Top Gang” e “True Lies” antes de ser contratado para produzir o redemoinho digital visto no episódio Piloto de “Arquivo X”, que o credenciou para atuar desde então na criação dos efeitos especiais. O diretor de efeitos especiais Dave Gauthier teve entre os seus méritos tornar possível que uma nave espacial fosse vista voando a 60 metros de altura erguida por um guindaste de 165 toneladas no episódio “Operação Clipe de Papel”. Infelizmente, como o resultado não ficou bom, a nave acabou sendo gerada totalmente através de computação gráfica. Os merecidos créditos devem ser dados também a Toby Lindala, supervisor de efeitos de maquiagem, responsável por tornar verossímil a maioria dos monstros e alienígenas vistos na série a cada semana.

O trabalho mais desafiador de Lindala até então tinha sido criar a fantasia de borracha do Flukeman, o verme humano de “O Hospedeiro”, da temporada anterior. Na terceira temporada, sua capacidade foi inúmeras vezes posta à prova, a mais complicada delas foi fazer com que o corpo do vidente Clyde Bruckman entrasse em acelerado processo de decomposição, que o ator Ian Tracey fosse visto sem os membros cuidadosamente escondidos e maquiados para o episódio “O Passeio” ou os cerca de 50 alienígenas que sua equipe precisou criar em apenas cinco dias para a cena da sepultura coletiva em “O Falso Alienígena”. Desses, 25 eram atores usando máscaras, os outros fantasias recheadas servindo de cadáveres.

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Desculpar-se é a política

Por tudo isso não foi de se admirar que o sucesso de “Arquivo X” como série cult prosseguisse durante a terceira temporada, que seguiu conquistando diversos prêmios importantes, como o The International Monitor Awards para Chris Carter como melhor diretor em “A Lista da Morte”, o Prêmio da Associação dos Atores da Tela para Gillian Anderson como melhor atriz em série dramática, além de vários prêmios Emmy, entre os quais o de melhor roteiro em série dramática para Darin Morgan e de melhor ator convidado em série dramática para Peter Boyle, ambos por “O Repouso Final de Clyde Bruckman”.

A terceira temporada apresentou novos elementos da mitologia e se aprofundou ainda mais em outros já abordados nas temporadas anteriores, entre eles a catalogação biológica de pessoas pelo governo e a colaboração dos conspiradores com os alienígenas. Os episódios iniciais “O Caminho da Cura” e “Operação Clipe de Papel” levaram os agentes a novas e corajosas direções. Mulder consegue sobreviver ao atentado contra a sua vida, mas tem que aceitar a morte do pai, assassinado por Alex Krycek, também o responsável pela morte de Melissa, irmã de Scully, que foi baleada por engano no lugar da agente.

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Mulder se torna ainda mais obcecado em sua busca pela verdade ao perceber que tudo aquilo que até então investigou foi apenas a ponta do iceberg de uma conspiração global muito mais sombria e complexa. Mulder descobre, por exemplo, que seu pai foi obrigado a realizar uma espécie de “escolha de Sofia”, entregando sua irmã Samantha aos conspiradores em vez do próprio agente. Por sua vez, Scully se torna uma personagem muito mais atuante na série sem mudar necessariamente seu papel fundamental: oferecer um contraponto científico às teorias paranormais de Mulder. Foi também nesses episódios que Scully descobriu o chip em sua nuca, provavelmente implantado durante a sua abdução e que se transformaria no arco principal do programa a partir dos próximos episódios da mitologia.

Em “Anasazi”, Scully é obrigada a atirar em Mulder para evitar que ele assassinasse Alex Krycek, e o leva para uma aldeia indígena onde ele descobre um vagão repleto de híbridos alienígenas enterrado no deserto. É o ponto de partida para os dois episódios que abrem a terceira temporada de “Arquivo X” e trarão importantes revelações para a chamada “mitologia” da série e o futuro das investigações dos agentes.

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Até mesmo o diretor assistente Walter Skinner ganhou mais destaque a partir dessa trilogia de episódios. A princípio visto por desconfiança por Scully, que chegou a apontar a arma contra ele, além da surra que sofreu de Krycek e mais dois homens em “Operação Clipe de Papel” ao ter roubada a fita digital, Skinner arriscou sua posição ao desafiar os conspiradores, ameaçando revelar as provas se algo acontecesse a seus dois agentes. Sua frase para o Canceroso “this is where you pucker up and kiss my ass” (“Isto é quando você se ajoelha e beija o meu traseiro”) é o grande momento do personagem na série até então. Skinner chegaria ao ponto de sofrer um atentado à bala em “O Mistério do Piper Maru”.

Os dois primeiros episódios também apresentaram um novo e enigmático personagem na série, o Homem Bem Vestido, também chamado de o Homem das Unhas Bem Feitas (The Well Manicured Man), membro do Sindicato das Sombras, grupo de conspiradores ligados ao governo norte-americano e envolvido nas atividades dos extraterrestres. O personagem, interpretado pelo veterano John Neville (As Aventuras do Barão de Munchausen) surgiu em “O Caminho da Cura” para alertar Scully de que sua vida corria perigo.

Essa trilogia contou também com a sorte dos produtores de terem encontrado as locações ideais para representarem a aldeia Navajo, a mina abandonada e o deserto do Novo México. Para esse último, foi usada uma pedreira próximo de Vancouver que teve suas montanhas pintadas de vermelho ao custo de mais de seis mil litros de tinta. Ali próximo, a equipe de produção encontrou a velha mina que acabou sendo usada como local onde milhares de arquivos haviam sido guardados para o episódio “Operação Clipe de Papel”. Um artista Navajo foi contratado para criar as pinturas rupestres e um feiticeiro de verdade foi trazido para servir de consultor técnico para a cena do ritual de cura. Durante a produção dos episódios, Chris Carter foi convidado a participar de um ritual dos nativos americanos, como parte de seu trabalho de pesquisa.

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A mitologia prosseguiu em episódios igualmente fundamentais como no episódio duplo “Os Japoneses” (Nisei) e “O Falso Alienígena” (731) que se iniciam com uma suposta autópsia em um alienígena e acabam revelando a participação de cientistas japoneses desde a Segunda Guerra no processo de criação de híbridos de humanos com alienígenas, além de mais esclarecimentos sobre a abdução de Scully quando ela conhece mulheres que sofreram a mesma experiência e agora estão morrendo de câncer. Há também o retorno do Sr. X (Steven Williams), o informante de Mulder e que acaba sendo o responsável por salvar a vida do agente antes da explosão do vagão em que ele estava confinado com um assassino e o híbrido alienígena. Para a cena espetacular foi usado um vagão de verdade, 120 bombas de pólvora, 170 litros de gasolina e sete câmeras simultâneas gravando a explosão cada uma de um ângulo diferente.

“O Falso Alienígena” também apresentou uma nova mudança de lema nos créditos de abertura de “Arquivo X”. No lugar de “A verdade está lá fora”, aparecia “Desculpar-se é a política” (Apologize is policy). É uma referência de Chris Carter ao pedido público de desculpas do governo dos Estados Unidos em relação a experiências secretas com radiação realizadas no passado. As outras vezes que esse lema foi alterado foram em “Jogo de Gato e Rato” para “Não confie em ninguém”, e em “A Ascensão” para “Negue tudo”.

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As duas partes de “O Mistério do Piper Maru” (“Piper Maru” e “Apocrypha”) por sua vez introduziram na mitologia o tema do óleo negro (conhecido como Câncer Negro), que é a forma como o vírus alienígena invadia o corpo de uma pessoa e passava a controlar suas ações. Ao reaparecer nesse episódio para entregar ao Canceroso a fita digital que roubou, Alex Krycek acabava sendo contaminado por esse óleo e terminava preso em um silo de mísseis onde estava escondida uma nave alienígena. “Piper Maru” foi uma brincadeira de título com o nome da filhinha de Gillian Anderson, nascida durante a segunda temporada da série e chamada Piper, (que significa “meiga” no idioma polinésio) e “Maru” que significa “navio” em japonês.

As cenas mais curiosas desses episódios são a de possessão pelo vírus, que é visto saindo dos olhos, nariz e boca do ator Nicholas Lea que precisou ficar dependurado e usar uma prótese com tubos por onde saía o líquido negro. Para as cenas de closes nos olhos, Mat Beck, o criador de efeitos visuais, conseguiu o efeito de possessão misturando uma substância oleosa na água, filmando, e em seguida sobrepondo a imagem aos olhos dos atores.

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“O Milagre” (Talitha Cumi), o episódio final que deixa o conhecido “gancho” para a temporada seguinte, traz de volta o Caçador Alienígena (Brian Thompson) visto anteriormente em “A Colônia”, desta vez perseguindo um dos clones chamado Jeremiah Smith, capaz de realizar curas milagrosas. Mulder tenta encontrá-lo para que ajude sua mãe, que sofreu um derrame após uma discussão com o Canceroso. Essa discussão sugere que ambos tiveram um caso no passado e que Mulder ou Samantha podem ter sido o fruto desse relacionamento. Uma das cenas mais tensas foi a luta entre Mulder e o Sr. X, que precisou ser reduzida para satisfazer as exigências do departamento de práticas e padrões da Fox. Mesmo assim, o ator Steven Williams acabou deslocando um ombro.

Os produtores consideraram uma enorme sorte terem conseguido o ator Roy Thinnes para viver o clone fugitivo Jeremiah Smith. Sua participação acabou sendo uma homenagem ao ator, famoso por atuar como o arquiteto David Vincent, que descobrira uma invasão alienígena em andamento e consequentemente viajava de um lugar a outro tentando frustrar os planos de invasão, no antigo seriado de TV “Os Invasores”, produzido no final dos anos 60.

Mulder pressiona o Canceroso contra a parede do hospital em que sua mãe está internada. O episódio “O Milagre” encerra a terceira temporada de “Arquivo X” deixando uma dúvida sobre a verdadeira paternidade do agente Fox Mulder. Curiosamente, ao contrário de seu personagem, o ator William B. Davis havia deixado de fumar a muitos anos. Seus cigarros eram produzidos especialmente para as cenas e feitos a partir de espécies de ervas.

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Episódios isolados continuaram a abordar temas sobrenaturais dos mais diversos, desde assassinos psíquicos em “O Passeio’ (The Walk) e “O Instigador” (Pusher), um assassino que escolhe suas vítimas pela Internet em “Tímido Demais” (2Shy) e até um monstro do lago em “Quagmire”. Há um episódio de cunho religioso, “Revelações” (Revelations), onde  a fé de Scully será posta mais uma vez à prova em uma nova inversão de papéis onde ela se torna a crédula e Mulder o descrente, e até episódios de humor que ajudaram a suavizar a tensão do público durante a exibição da temporada. A reação positiva dos fãs ao episódio de humor “A Fraude” (Humbug), exibido durante a segunda temporada, acabou motivando os produtores a investirem mais no gênero, mas sem em nenhum momento perder o caráter assustador da série.

Nem tudo, porém, foram flores. Alguns episódios ficaram muito aquém do resultado esperado: “A Reencarnação” (Avatar), onde havia um complô para derrubar o diretor assistente Skinner, que foi acusado de assassinar uma mulher com a qual ele teve um caso, “Dinheiro Infernal” (Hell Money), que se passava em um bairro chinês e envolvia tráfego de órgãos humanos, e o pior de todos, “A Maldição da Múmia” (Teso dos Bichos), cujo interesse esbarrava já no título genérico sobre uma múmia equatoriana ligada ao espírito de um xamã. O episódio desagradou a todos, inclusive ao diretor do episódio Kim Manners, que mandou distribuir camisetas com os dizeres “Sobreviventes de Teso dos Bichos” para a equipe, e a estrela Gillian Anderson – que é alérgica a gatos. Gillian confessou que a cena em que foi obrigada a lutar com um gato empalhado foi um dos seus pontos mais baixos em toda a terceira temporada.

Os três episódios da terceira temporada mais voltados para o humor e que acabariam se tornando uma nova marca do seriado abordavam um assassino de videntes em “O Repouso Final de Clyde Bruckman’ (Clyde Bruckman’s Final repose”), a investigação do sequestro de um casal de adolescentes por alienígenas em “Do Espaço Sideral” (Jose Chung’s From Outer Space) e baratas assassinas em “A Guerra das Baratas” (War of Coprophages). Na foto abaixo, David Duchovny e Peter Boyle, em “O repouso Final de Clyde Bruckman”.

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Continua no próximo post…

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