20 Anos de Arquivo X – Parte 7

Posted: September 9, 2013 in tudo o que eu amo
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Para ler a Parte 6, clique aqui.

Resistir ou Servir

Durante cinco anos – uma eternidade para os padrões culturais e televisivos, esse programa inovador penetrou na psique coletiva. “Arquivo X” iniciou seu quinto ano de existência mantendo seus antigos espectadores, atraindo novos seguidores e criando mais grupos de discussão que se espalhavam rapidamente e com ainda mais força através da Internet. Isso foi possível porque os responsáveis pelo programa, particularmente seu criador e produtor executivo, Chris Carter, mantiveram-se fiéis aos princípios básicos que fazem um programa dar certo: o tempo todo criando desafios para eles mesmos e para os espectadores, bem como para os principais personagens da série.

Mulder e Scully eram parceiros íntimos e não amantes, e os laços de amizade e respeito que uniam esses dois agentes desde o início foram se estreitando ainda mais no final do quarto ano e alcançou um momento mais profundo e emblemático na quinta temporada, em que ambos arriscariam mais de uma vez a vida um pelo outro. Mulder continuava a ser o rebelde sonhador que não acreditava na versão oficial e para o qual a autoridade não era digna de confiança. Scully, por sua vez, como médica e cientista, continuava a ser a metade racional da dupla, cuja conduta cética escondia uma profundidade de sentimentos e desejos nem sempre bem-vindos. Durante cinco anos, a dupla se deparou com muito mais do que uma dose absurda de monstros, extraterrestres, criminosos, psicopatas e conspiradores que se uniam a uma raça de alienígenas que pretendia colonizar o planeta.

Quando a quinta temporada estreou em 2 de novembro de 1997, praticamente o mundo todo já havia ouvido falar da série – um programa obrigatório para quem ficava em casa nas noites de domingo – que abordava a saga sem fim de Fox Mulder e Dana Scully, os dois agentes do FBI designados para um setor incomum de sua agência dedicado a casos sobrenaturais.

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Durante a quinta temporada os episódios continuaram mostrando uma variedade de temas, divididos entre os “independentes” (episódios isolados envolvendo os monstros da semana e inimigos dos mais diversos tipos) e os “mitológicos” (que abordavam a conspiração e o drama dos agentes em episódios que se desdobravam ao longo da temporada). O “Arquivo X” de 1998 pouca coisa tinha a ver com aquele programa que estreou em 10 de setembro de 1993: as tramas tornaram-se mais complicadas, as ameaças enfrentadas por Mulder e Scully muito mais sinistras, a fórmula que afastava o programa dos dramas convencionais da TV tornou-se ainda mais radical.

O mais curioso de tudo visto na quinta temporada foi a inversão de papéis: Mulder, acreditando que tudo sobre extraterrestres que investigou durante anos não passava de uma enorme mentira, torna-se um cético irredutível e mal humorado. Scully, que enfrentou a morte ao sobreviver a um câncer fatal, flertou com o espiritualismo e com uma tímida crença no paranormal. Os números continuavam impressionantes: “Arquivo X” era o quinto programa mais assistido nos Estados Unidos em 1998, o segundo drama de TV mais assistido e o campeão absoluto nas noites de domingo. Isso tudo se refletiu na quantidade de prêmios que recebeu, entre eles o Emmy e o Globo de Ouro de melhor atriz em série dramática para Gillian Anderson, além do Globo de Ouro de melhor série dramática.

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Qualquer produtor de TV no lugar de Chris Carter se daria por satisfeito com o sucesso atingido por sua criação, mas Carter queria mais. Ele planejava levar “Arquivo X” para as telas de cinema no final da quinta temporada. Um projeto ambicioso sob muitos aspectos.

Todas as mentiras levam à Verdade

Desesperadamente aguardado pelos fãs, “Em Busca da Verdade”, o primeiro do episódio em duas partes que abre a quinta temporada, faz um flashback para explicar o que de fato aconteceu ao agente Mulder, dado como morto no final da temporada anterior. Com o aval de Scully, que atestou a sua morte e estava investigando um possível traidor dentro do FBI , Mulder conseguiu passar pela segurança do Pentágono e invadiu o laboratório onde estaria a cura para o câncer de sua parceira, que precisou ser internada. Quem deu a dica a Mulder de como salvar Scully é o próprio Canceroso, através do reimplante de um chip similar ao que foi removido de sua nuca anos atrás, e que tentou comprar a lealdade do agente também trazendo sua irmã Samantha de volta: “Saia do FBI. Trabalhe para mim. Farei seus problemas sumirem”.

O episódio “Em Busca da Verdade Parte 2” também foi um dos preferidos do roteirista  Frank Spotnitz e da estrela Gillian Anderson: “Eu achei que foi um episódio sensacional, especialmente nas cenas da sala de audiência e em toda a evolução da súplica de Scully. O modo como foi escrito e editado foi fabuloso”, declarou a atriz na época.

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No final do episódio, em uma tentativa de queima de arquivo, o Canceroso era visto levando um tiro no peito. Ao saber que Scully estava totalmente curada, Skinner – que era o principal suspeito de ser o agente traidor – sorria aliviado, enquanto Mulder chorava sozinho olhando para uma antiga foto dele com Samantha. Os episódios representaram enormes desafios para a equipe de roteiristas da série, que precisaram amarrar diversas pontas soltas ao longo das temporadas e costurar várias explicações e soluções em uma narrativa que misturava tempo real e flashback. Um desafio para os atores David Duchovny e Gillian Anderson, assim como para todo o elenco secundário, que também ganharam cenas de grande tensão e profundidade dramática. Chris Carter declarou que “Em Busca da Verdade Parte 2” era “um dos melhores episódios que eu já fiz”.

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“Redux”, o título original desse eletrizante segmento da mitologia de “Arquivo X” é um termo usado no sentido de “restaurado” ou “trazido de volta”, mas também tem um significado médico, indicando o retorno de um órgão ou organismo a um estado saudável. Esses episódios foram épicos em muitos sentidos. Mostraram os sentimentos mais intensos entre Mulder e Scully já vistos até então e uma guinada na crença pessoal de Mulder – que se tornaria um cético – e de Scully – cada vez mais aberta às possibilidades paranormais. Vários personagens foram trazidos de volta, como a mãe de Scully (Sheila Larken), o irmão dela Bill Jr. (Pat Skipper), a irmã de Mulder, Samantha (Megan Leitch), com a idade como foi vista em “Fim de Jogo”, da segunda temporada, e o chefe de seção Blevins (Charles Cioffi), que havia sido visto apenas nos primeiros episódios do primeiro ano, além do Agente Senior (Ken Camroux), presente no escritório de Blevins durante a entrevista de Scully no episódio Piloto. O episódio apresentou ainda uma alteração no lema de “A Verdade Está lá Fora” para “Todas as Mentiras Levam à Verdade” (All Lies Lead to the Truth).

A primeira atriz escolhida para viver Emily entrou em pânico quando precisou filmar a cena em que a personagem é examinada dentro de uma câmara de laboratório. Como a menina não conseguia mais se acalmar, foi preciso encontrar uma substituta para atuar na segunda parte, “Emily”. Isso obrigou a equipe de produção a descartar todas as suas cenas já filmadas para o primeiro episódio “Surpresa de Natal”, refilmar essas cenas usando a dublê de Gillian Anderson – cuja agenda não permitiu que a atriz refizesse as cenas – e reeditar o episódio de modo que a mudança da atriz não fosse percebida no produto final.

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Em “Surpresa no Natal”, Scully conhecia uma menina cuja mãe aparentemente cometeu suicídio mas que ela suspeitava ser a filha adotada de sua irmã Melissa. Exames mostraram depois que Emily na verdade era filha de Scully, gerada durante a sua abdução no passado. David Duchovny precisou se ausentar para promover seu filme “Playing God”, dando a Gillian a oportunidade de brilhar nesse episódio-solo fundamental para os rumos de sua personagem daqui para frente. Mulder só aparecia na segunda parte, “Emily”, quando com a ajuda dos Pistoleiros Solitários descobriu os planos de criação de clones alienígenas a partir de embriões retirados de dezenas de mulheres. Partindo da inspiração do conto de Natal de Dickens, o episódio mostrava Scully às voltas com lembranças do seu passado que iriam se refletir nas ações dela no presente. A personagem é vista em 1968 (vivida por Joey Shea) e em 1976, quando foi representada pela irmã de Gillian na vida real, Zöe, na época com 14 anos. Zöe, que havia participado de peças de teatro na escola, foi chamada por conta da impossibilidade de a diretora de elenco de Vancouver Coreen Mayrs encontrar uma atriz que se parecesse com uma jovem Dana Scully.

A veterana atriz Veronica Cartwright, que interpretou a abduzida Cassandra Spender, tem no currículo filmes como “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock, e “Alien, o Oitavo Passageiro”. O episódio duplo “A Paciente X” mostra um agente Mulder descrente da existência de vida extraterrestre e uma agente Scully mais aberta às possibilidades de que não estamos sozinhos no Universo.

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Mais curta por conta da produção do longa de “Arquivo X”, a quinta temporada concentrou-se basicamente na mitologia, com outro episódio duplo fundamental: “A Paciente X” (“Patient X” e The Red and The Black”), que introduz novos personagens, como o agente do FBI Jeffrey Spender (Chris Owens) e sua mãe Cassandra (vivda pela veterana atriz Veronica Cartwright), uma mulher dezenas de vezes abduzida, que sofreu inúmeros testes biológicos e foi proclamada uma espécie de profeta de uma nova era envolvendo a presença de alienígenas no planeta. Ainda descrente de tudo, Mulder a princípio hostiliza a ideia, enquanto Scully, identificando-se com o drama de Cassandra, tenta protegê-la dos alienígenas sem rostos que estão matando todos os abduzidos.

“A Paciente X” mostrava ainda uma cena de amor entre Alex Krycek (Nicholas Lea) e Marita Covarrubias (Laurie Holden), que retornaram em participações importantes neste episódio envolvendo também a corrida desesperada dos membros do Sindicato por uma vacina contra o vírus alienígena. O boato que corria na época foi que Chris Owens, que atuou sob a maquiagem de o Grande Mutato no episódio “Prometeu Pós-Moderno” (The Post-Modern Prometheus) e já havia sido visto como o jovem Canceroso em “Meditações Sobre o Canceroso” e “Demônios” da temporada anterior, iria substituir David Duchovny, que já andava manifestando seu desejo de deixar a série ao final da quinta temporada. A segunda parte mostrava uma alteração no lema de abertura da série, de “A Verdade Está lá Fora” para “Resistir ou Servir” (Resist or Serve).

A contratação de Chris Owens e a sua eventual aparição anteriormente como a versão mais jovem do Canceroso foi apenas mais uma jogada esperta de Chris Carter, que iria surpreender o público ao mostrar que o agente Spender não só era o filho do Canceroso, mas que por linhas tortuosas do passado, também era o meio-irmão do agente Mulder.

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O episódio “O Final” (The End) deixou o público estarrecido a começar pelo título que anunciava o fim (da série?) e deixava uma expectativa enorme para o lançamento do filme “Arquivo X – Resista ao Futuro”, que daria continuidade às aventuras de Mulder e Scully agora nas telas de cinema. Na trama, o menino Gibson Praise (Jeff Gulka), capaz de ler a mente das pessoas, é perseguido por agentes do Sindicato. Ficamos sabendo que o Canceroso sobreviveu ao atentado à bala que sofreu, que ele é de fato o pai do agente Spender, que a agente Diana Folley (Mimi Rogers), designada para acompanhar o caso do menino Gibson, foi namorada de Mulder no passado, e que os “Arquivos X” foram novamente fechados, com um incêndio criminoso na sala de Mulder destruindo todos os seus documentos. A mudança do lema “A Verdade Está lá Fora” no final dos créditos de abertura para “The End” (O Fim) aumentou ainda mais a ideia de que este seria o último episódio da série.

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Em meio a tantas revelações e surpresas dentro da mitologia da série, a quinta temporada marcou episódios isolados curiosos. Um deles foi “Prometeu Pós-Moderno”, inteiramente filmado em preto e branco como uma espécie de homenagem aos filmes de terror do passado, mas com um tom muito bem humorado e uma homenagem à cantora Cher. Os produtores até tentaram, mas não conseguiram com que ela aceitasse participar do episódio. “Vampiros” (Bad Blood), foi outro episódio de humor em que a história era contada sob o ponto de vista de Mulder e também o de Scully, o que gerava profundas e divertidas diferenças entre as duas versões, além do retorno do criminoso psíquico Robert Modell (Robert Wisden), visto antes em “O Instigador”, da terceira temporada, que se recuperava e agora buscava um acerto de contas com Mulder. A temporada foi marcada por aventuras-solo de cada um dos agentes, em que os atores se revezavam atuando sozinhos para que o outro pudesse descansar. Houve também episódios especiais, o primeiro escrito pelo mestre da literatura de terror Stephen King, “Feitiço” (“Chinga”), sobre uma boneca falante maligna, e o segundo, escrito por William Gibson, o festejado autor do romance cyberpunk “Neuromancer”, “Vivendo no Cyberespaço” (Kill Switch), uma trama envolvendo uma forma de inteligência artificial que atacava pela Internet.

“O Serafim” era um antigo roteiro que estava guardado há mais de um ano e que foi reescrito para ser uma espécie de terceira parte do arco envolvendo a filha falecida de Scully, Emily. O episódio abordou aspectos espirituais e sobrenaturais que mexeram com a fé e as crenças de Scully, e ao mesmo tempo mostraram Mulder como um cético irredutível, realçando ainda mais a inversão de papéis entre eles que foi o tema principal de toda a quinta temporada.

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O título original de “Suspeitos Incomuns”, “Inusual Suspects”, é uma brincadeira com o famoso filme “Os Suspeitos” (Usual Suspects), de Brian Singer, e traz uma participação especial de Richard Belzer, astro da série de TV “Homicide”. No episódio, Bruce Harwood teve a chance de fazer algumas cenas românticas e com direito a beijo no final quando Byers se apaixona pela fugitiva Suzanne Modeski (Signy Coleman).

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Houve ainda dois episódios anacrônicos dentro da série. O primeiro, “Suspeitos Incomuns” (Unusual Suspects), uma aventura-solo dos Pistoleiros Solitários e que se passa em 1989 mostra o primeiro encontro entre o trio de teóricos de conspirações e o agente Mulder, quando esse ainda trabalhava na divisão de crimes violentos do FBI, antes de reabrir os Arquivos X. Como se tratava de um episódio em flashback, o roteirista Vince Gilligan trouxe de volta o ator Steven Williams para interpretar o Sr. X, personagem assassinado na temporada anterior. Por conta da agenda apertada, este acabou sendo o primeiro episódio da temporada a ser produzido, pois os astros David Duchovny e Gillian Anderson ainda estavam presos na Califórnia terminando as filmagens do longa-metragem. Gillian não aparece no episódio, já que sua personagem só entra na história em 1993. As poucas cenas com Mulder foram filmadas por último e encaixadas na trama.

Para o episódio “Simpatizantes”, que revelou alguns acontecimentos envolvendo o pai de Mulder em sua juventude, Chris Carter conseguiu realizar um antigo desejo: trazer o astro do seriado “Kolchak e os Demônios da Noite”, que o inspirou a criar o “Arquivo X”, Darren McGavin, para interpretar o ex-agente Arthur Dales. Aos 74 anos, após inúmeras recusas, o ator finalmente aceitou atuar na série e ainda reprisaria o papel na sexta temporada.

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O segundo episódio, que faz uma ponte entre o passado e o presente da série, foi “Simpatizantes” (Travelers), que mostra o agente Mulder investigando um crime acontecido em 1990 que o levou para outro caso, ocorrido em 1952. Para ajudá-lo, decidiu contatar o primeiro responsável pelos Arquivos X, o já aposentado e ex-agente do FBI Arthur Dales, que explicou a ele a natureza estranha dos casos que investigou na década de 50: “Você sabe o que é um Arquivo X?”perguntou o ex-agente. A caça às bruxas promovida pelo senado norte-americano fez nascer na mente dos criadores da série este complicado e curioso episódio: o nome do ex-agente foi uma referência a Howard Dimsdale, um talentoso roteirista que ficou desempregado depois de ter seu nome incluído na lista negra do macarthismo que varreu a indústria de entretenimento norte-americana nos anos 50. Para poder trabalhar, Dimsdale adotou o pseudônimo de Arthur Dales. O episódio exigiu um esforço enorme da equipe de produção que recriou cenários, figurinos e personagens reais, como o próprio J. Edgar Hoover, lendário diretor do FBI aqui interpretado pelo ator David Fredericks, que já havia aparecido em “Meditações Sobre o Canceroso”, da quarta temporada.

Para cumprir a agenda de programação do canal Fox, recapitular tudo o que já havia sido mostrado na série até aquele momento e já fazendo uma prévia do que viria a ser visto no longa-metragem para os cinemas, os produtores criaram um episódio especial chamado “Inside The X Files”, um documentário de uma hora com clipes dos episódios antigos, entrevistas com os atores, roteiristas e produtores, e que você poderá conferir na íntegra logo a seguir:

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Continua no próximo post…

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